Hoje parto triste…
“Nunca
terás certezas nem de ti próprio.”
Livro
dos Conselhos
Já não levo da vida tempo mas quis,
ontem, visitar um velho amigo, um escritor que sempre soube ver o mundo e,
talvez por isso, escrevia quase só para si.
Hoje parto por não saber pertencer ao
grupo dos fracos. Fracos por teimosia. Fracos por se acomodarem em breves
comentários entre cafés. “Está tudo mal… é a crise!”
Hoje parto pela necessidade de luta que
há em mim. Hoje parto porque partem os jovens e não sabem que responder aos
pais quase sós, aos meus parceiros de uma outra infância.
A sociedade falha de maneira assombrosa
e as “máquinas” que nos poderiam mover calam-se. Não sabem apontar um caminho
quando os primeiros passos foram seus e errados. Não sabem mudar o rumo e
morrem antes mesmo do embate contra a própria realidade. E temos tantos
afastamentos do que significa esse termo que às vezes acho abusivo um emprego
tão estéril em discursos tão significativos. “A realidade atual…”
Visitei um companheiro que escreve,
único e deforma capital, ensaios sobre dissoluções ideológicas e harmonias
implacáveis quando um povo se ergue e constrói um futuro. Visitei-o para
dizer-lhe adeus.
Portugal precisa de se encontrar fora
dos brandos costumes de que às vezes se sente orgulhoso – disse-me. Nascemos
todos do mesmo espírito mas só somos verdadeiramente portugueses quando
abandonamos o país.
Sentimos saudades quando estamos longe
mas trabalhamos arduamente para algo. O vermelho da bandeira não fala apenas do
sangue derramado em guerras. Fala também dos laços de sangue que se partiram a
alguns anos quando a emigração foi um remendo social. Fala das lágrimas
derramadas então mais dolorosas que o sangue a escorrer das mãos ao tentar
cultivar as terras para alimentar os filhos.
Se calhar devemos esvaziar o país até
que todos saibam que dor sentem agora os jovens. Falta-nos visão…
Tentei ainda argumentar que este nosso
mal é também culpa de outros. Respondeu-me baixo e claro, sem pressas. Não
somos o mundo mas construímo-lo! Daí não podemos lavar as mãos!
Hoje abandono o meu país com a certeza
de que alguém se preocupa com tudo aquilo com que cresci mas sei que as suas
verdades nunca chegarão a ser a vontade de um povo!
“Contra os canhões marchar”… Enchem-se
os pulmões a cantar quando as dores não são nossas. Este foi sempre o reflexo
da nossa existência. Este será sempre o nosso futuro, presente e passado.
Ass. Um Marinheiro
Este texto foi publicado na terceira edição da fanzine Lacuna.