Foram
buscar-me…
Despedi-me
da minha mulher e ela não chorou.
E foi isso
que me fez não falar
mesmo quando ouvia,
atravessando
os corredores,
o chiar
metálico da dor
e os gritos
de outros homens.
O baque de corpos
que caíam!
A dor faz de
nós pessoas maiores
mas a
tortura leva-nos, às vezes, a
alma
e perdemos a
lucidez do que é certo,
daquilo que
somos.
Estão a
torturar esse homem,
pensei
e alguém
exclama ao céu,
atrás de
mim:
Pai levai-me
para junto de ti
ou perco a
fé que me resta.
Não somos
nós que sofremos!
Ganhamos um
espaço indefinido
onde
refugiamos tudo o que é verdadeiramente nosso
deixando que
o corpo sofra.
Quando o
sofrimento ganha uma dimensão abjecta
então começamos
a julgar
todas as nossas ideologias de uma só vez.
Enlouquecemos,
sem respostas…
Não sei
quanto tempo estive preso em Caxias
mas quando
libertaram-me não soube chorar.
Já não tinha
alma nem vontades dentro de mim.
(Texto construído a partir da narração das vivências de um ex-prisioneiro da PIDE.)
(Texto construído a partir da narração das vivências de um ex-prisioneiro da PIDE.)