quarta-feira, 30 de maio de 2012

Já não tinha alma nem vontades dentro de mim.



Foram buscar-me…

Despedi-me da minha mulher e ela não chorou.
E foi isso que me fez não falar
mesmo  quando ouvia,
atravessando os corredores,
o chiar metálico da dor
e os gritos de outros homens.
O baque de corpos que caíam!

A dor faz de nós pessoas maiores
mas a tortura leva-nos, às vezes, a alma
e perdemos a lucidez do que é certo,
daquilo que somos.

Estão a torturar esse homem,
pensei
e alguém exclama ao céu,
atrás de mim:
Pai levai-me para junto de ti
ou perco a fé que me resta.

Não somos nós que sofremos!
Ganhamos um espaço indefinido
onde refugiamos tudo o que é verdadeiramente nosso
deixando que o corpo sofra.
Quando o sofrimento ganha uma dimensão abjecta
então começamos a julgar
 todas as nossas ideologias de uma só vez.
Enlouquecemos, sem respostas…

Não sei quanto tempo estive preso em Caxias
mas quando libertaram-me não soube chorar.
Já não tinha alma nem vontades dentro de mim.

(Texto construído a partir da narração das vivências de um ex-prisioneiro da PIDE.)


sexta-feira, 25 de maio de 2012

Não me sei iludir...


Não me peças para te sorrir
todas as vezes que teimas em me ter por perto
assistindo, incapaz, aos teus erros.

Não me sei iludir do mesmo modo.
Não com as mesmas pessoas.

Se ao menos soubesse porque te cega o coração
teria o entendimento calado
e a paixão branda de quem ama a lua todas as noites.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Não durmo!


Não durmo!
Não consigo.
Não sei.

Dói-me a cabeça e sei não saber,
entender a dor que tenho na alma
ou o cansaço de uma cadência repetida.

Afogo-me dramaticamente na realidade
do sonho em que despertei.
A água é gelada e não me deixa adormecer à três noites,
por uma vida.

Não durmo!
Não consigo.
Não sei.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Preciso de partir...


Chegou a altura de partir,
meus amigos…

Partir,
e conhecer novos nomes e rostos,
novas ideias, novas vidas, novos sonhos.
Não posso reduzir-me a este pequeno mundo
se o mundo é tão vasto e interessante.
Não me consigo conter
parado
sem evolução.

Faltam-me as forças, a paciência,
o orgulho que tive, outrora,
e a decência de ser ouvido.
Falta-me uma nova vida, novos objectivos.
Sinto-me preso
a uma eterna repetição de sentidos
vazios e estéreis,
a um estilo que não adoptei e tenho de ser referência. 

Preciso de partir…

Como se te conhece-se à muito...


Como se te conhece-se à muito
procuro-te
para longas conversas descritas.

Não há um plano ou sonho…
Existe apenas a intenção de o fazer
sem saber saber porquê
agora que lês o que não te sei explicar
e continuamos sorrindo. 

domingo, 20 de maio de 2012

Nesse dia...


Nesse dia perdi a minha segurança!
Quando te levantaste da nossa cama
para não mais regressar
deixando nas sombras memórias
voltando em silêncio.

Nesse dia foi fácil dizer-te adeus
sem lágrimas
ou o sentimento mordaz de vazio.

Não sei, ainda, esperar-te
nem dize-lo 
sem tristeza…

Nesse dia, não fui, sequer,
o sonho liberto de uma tarde distante.

Nesse dia não fui quem desejei ter sido
e perdoar-te o caminho,
o último beijo,
o último abraço apertado…

…dentro do coração. 

terça-feira, 15 de maio de 2012

Hoje guardo a consciência de já te ter perdido


Será um dia,
este dia,
a confirmação da tua distância,
da nossa indiferença,
pensada.

Trarei um sorriso terno sobre as memórias de agora
de sempre,
de quando somos alheios a nós próprios
e pensamos um no outro
sem ter necessidade ou intenção.

Hoje relembro o dia que virá
estampado com velhas emoções,
os primeiros degraus de um novo caminho
percorrido, então.

Hoje guardo a consciência de já te ter perdido
e certeza de não procurar-te. 

sábado, 12 de maio de 2012

Como sei falar-te sem te abraçar


Um dia saberás as incertezas e os sonhos que em ti tenho
e o modo discreto de se revelarem
nas nossas conversas.

Um dia dir-te-ei como encontro calma em não te ter
e coerência no teu afastamento.
Como sei falar-te
sem te abraçar
e amar-te sem querer. 

quarta-feira, 9 de maio de 2012

É a realidade que tenho


Chove lá fora,
ainda,
é a realidade que tenho!
Fui à janela saber como era o céu,
como poderia ser o dia
a luz de uma única estrela
se na noite as contamos mil.
Mas é dia lá fora e chove
e tenho estranheza de o saber
porque não encontro razão para a luz que me entra no quarto,
forçada,
forçando-me a pensa-la.
É esta a luz que cai como poalha por cima das nuvens
e húmida aqui,
na terra onde existimos por trás de uma janela, 
nestes dias. 

Porque não sei explicar o sol ou a lua
ou tudo o resto do que dizem ser um universo
guardo-me neste quarto,
neste infinito de mundo,
onde sempre haverá luz e escuridão 

e vida por sentir.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Não sou grato por algumas memórias...


A tarde surge na noite
dando lugar ao cedo, 
do dia,
da manhã nova que nasce
além da minha memória.

Dou por mim desperto
consumido por uma teimosia que me trava o sonho.
Não sou grato por algumas memórias
mas deixo-as ficar .
Erros de recordação árdua que persistem…

Encontro-me
recordando um momento que perdeu o tempo que o passei
e o presente em que o aceito,
ainda,
voltando ao meu cuidado emocional. 

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Até sempre...


Nunca soubemos amar-nos,
talvez,
como irmãos ou amantes,
ou amigos que se conhecem profundamente
mas tivemos sempre vontade de faze-lo,
de certo modo.

Não soubemos sorrir sozinhos
e partilhamos muito.
Nem sempre nos soubemos encontrar
mas sempre estivemos perto
para uma atenção, para uma conversa,
para um sorriso.

Pode este ser um fim que desejamos adiado
mesmo sabendo ser necessário.
Pode ser um momento de lágrimas
em que se ouve, em silêncio,
avivarem-se as memorias de sorrisos passados
e a nossa distância aumentará
mas não o esquecimento, não a tristeza!
Encontrarás um rumo e irás sorrir,
sempre,
de forma corajosa como sei que consegues.
Farás sucesso.
Farás avançar o mundo.
Farás pessoas felizes
e serás feliz da forma que desejas…

…se acreditares sempre em ti mesma.

Até sempre.