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sábado, 2 de novembro de 2013

Ali

Ali, onde o mar exagera a pedra negra,
rasgaram-se as veias da terra ao mar
e o sangue brotou quente.
Raiou a dor de uma país a nascer, uma nação a encontrar
a força e o navegar.

Ali onde a praia é funda
lançaram sonhos breves em esperança
e a certeza de o querer, negando, deixar.

Não sei os caminhos que se farão mas ali...
Ali o Atlântico que tanto nos limpou
virou costas!

Ali
aonde Sebastião nunca mais veio!

domingo, 31 de março de 2013

Hoje parto triste


Hoje parto triste…

“Nunca terás certezas nem de ti próprio.”
Livro dos Conselhos

Já não levo da vida tempo mas quis, ontem, visitar um velho amigo, um escritor que sempre soube ver o mundo e, talvez por isso, escrevia quase só para si.
Hoje parto por não saber pertencer ao grupo dos fracos. Fracos por teimosia. Fracos por se acomodarem em breves comentários entre cafés. “Está tudo mal… é a crise!”

Hoje parto pela necessidade de luta que há em mim. Hoje parto porque partem os jovens e não sabem que responder aos pais quase sós, aos meus parceiros de uma outra infância.
A sociedade falha de maneira assombrosa e as “máquinas” que nos poderiam mover calam-se. Não sabem apontar um caminho quando os primeiros passos foram seus e errados. Não sabem mudar o rumo e morrem antes mesmo do embate contra a própria realidade. E temos tantos afastamentos do que significa esse termo que às vezes acho abusivo um emprego tão estéril em discursos tão significativos. “A realidade atual…”

Visitei um companheiro que escreve, único e deforma capital, ensaios sobre dissoluções ideológicas e harmonias implacáveis quando um povo se ergue e constrói um futuro. Visitei-o para dizer-lhe adeus.

Portugal precisa de se encontrar fora dos brandos costumes de que às vezes se sente orgulhoso – disse-me. Nascemos todos do mesmo espírito mas só somos verdadeiramente portugueses quando abandonamos o país.
Sentimos saudades quando estamos longe mas trabalhamos arduamente para algo. O vermelho da bandeira não fala apenas do sangue derramado em guerras. Fala também dos laços de sangue que se partiram a alguns anos quando a emigração foi um remendo social. Fala das lágrimas derramadas então mais dolorosas que o sangue a escorrer das mãos ao tentar cultivar as terras para alimentar os filhos.
Se calhar devemos esvaziar o país até que todos saibam que dor sentem agora os jovens. Falta-nos visão…

Tentei ainda argumentar que este nosso mal é também culpa de outros. Respondeu-me baixo e claro, sem pressas. Não somos o mundo mas construímo-lo! Daí não podemos lavar as mãos!

Hoje abandono o meu país com a certeza de que alguém se preocupa com tudo aquilo com que cresci mas sei que as suas verdades nunca chegarão a ser a vontade de um povo!
“Contra os canhões marchar”… Enchem-se os pulmões a cantar quando as dores não são nossas. Este foi sempre o reflexo da nossa existência. Este será sempre o nosso futuro, presente e passado. 

Ass. Um Marinheiro


Este texto foi publicado na terceira edição da fanzine Lacuna.

Nunca me esqueci de ti

Nunca me esqueci de ti!
Pude, talvez, ser alguém
que não eu
e viver sob outras necessidades
mas nunca te esqueci.

Houve momentos, 
ou uma vida,

que criamos juntos e nunca esqueci.
Não soube,desde então, conhecer-me sem essas memórias,
sem essa paixão submersa em passados e risos
e tardes de sol a dourar as folhas no fim do verão.

Houve um momento de vida
depois apenas a saudade me conheceu
e a raiva pela minha falta a presenciar a tua ausência.
O corpo escasseia-me e engana...
Mas nunca me esqueci de ti!

Ass. O teu porto antigo...

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Grândola...

O vento breve levanta-se
e nele sente-se a fria verdade de um povo que sofre. 
Aos poucos aumente o desejo de um outro rumo
à vida que afinal, partilhada, é de todos 
e de todos precisa.
Não sabemos entendermo-nos de outro modo 
senão chorando um passado tantas vezes insultado

terça-feira, 23 de outubro de 2012

As certezas negadas de nós


Não percebemos de nós mesmos e procuramos nos ideais o conforto de um entendimento ou um recosto para pensamento. Custa-nos sempre pensar um pouco mais!

Não sabemos evitar as nossas variadas paixões e trazemos para o nosso lado escuro tudo o que fuja a uma linha de conduta ideal, sonhada, desejada.
São notáveis as vezes que os reprimimos anseios para não desvirtuar uma imagem social! Porque havemos sempre de ser assim, rectos, julgamos!

Criam-se utopias sociais e leis para regular as nossas vontades. Reprimir-nos é vivermos socialmente!
Nunca saberemos ser verdadeiramente felizes nem viver socialmente de acordo com os nossos desejos. Não temos solução para isso. Não temos esse olhar de nós. Não sabemos que pensar…

Dói-me a conduta assumida por vezes... porque amo mais que aquilo que sei contar.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Não soube voltar.


A cada linha escrita 
perco-me um pouco mais
como quem tivesse de engolir o sol
e não lhe encontrasse razão. 

Chamaram-me e não soube voltar. 

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Fecharam a fábrica



Fecharam a fábrica!

Soube quando, cruzando a última esquina de um destino agora adiado, encontrei na rua as pessoas caladas. Vistas cansadas e tristes que olhavam as horas procurando explicações, uma frase de alento ou uma ponta de mentira naquilo tudo.


Aproximei-me já em passo desapertado e vagueando o chão com o olhar. Ao meu lado surgiu um colega que me encontrou a atenção para depois escapar-se num suspiro sem alento. Não soube encara-lo e não era isso mais que o seu desejo, um instinto ético.

Ficamos assim por instantes sabendo não saber salvar-nos dessa verdade.

Metemos mãos aos bolsos a trabalhar num jeito de nada fazer, esperando, e fomos sentarmo-nos do outro lado da estrada, de onde se podia olhar o portão do complexo e, além do gradeamento, a fábrica de que nada mais tínhamos. Permanecia calada e familiar e não soubemos odia-la.


Pequena ia a filha de alguém com quem trabalhei e parou. Pararam ambos, olhando-se, um de olhar vazio, outro cheio de lágrimas. Abraçaram-se sem poder nada contra esse momento, contra a imposta realidade.

A pequena não chorava, chorando-lhe a alma que portava o pai. Ela pequena encolhia-se no seu colo agarrando com força a camisa destoada. Não tinha noção do que fazia mas a consciência desse sentimento era todo seu.


Faltava, agora, à escola. Passaram momentos e tempos e a criança tornou-se no pai daquele homem. Era saturante o amor que ela lhe dava ao limpar com a mão pequena lágrimas adultas e fartas que lhe escorriam no rosto.

Houve um momento em que a espera sebastiana ganhou noção de si mesma e todos partiram do portão do complexo.

A pequena perdeu um pai firme em certezas mas ganhou uma compreensão adulta. O homem perdeu o trabalho mas encontrou a razão da sua tristeza, o amor que o fazia esforçar-se, que lhe dava o norte e sorriu quando voltou a casa, nesse dia.


E eu, que perdi também o trabalho, encontro conforto em saber como se rege o mundo. Como são ínfimas as certezas que levamos para o destino e como aprendemos na dor o que no desafogo esquecemos, muitas vezes. 

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

O sol, o mar e as memórias

Foi este o sol que me cresceu
quando jovem adormecido
nas costas de um futuro sem traço,
no tom de um sentido.

Trago de seu o mar
no rosto, nos olhos a brilhar,
no gesto que soube ser meu,
na voz que parece faltar.

Então guardo, cego, essas memórias
para saber sorrir,
o mundo tem de ser falível.

Como sabemos olhar-nos calados…

quinta-feira, 19 de julho de 2012

As memórias de outros


A noite liberta-me da responsabilidade de ser lógico
e a imaginação afunda-se num sonho desajeitado.
Ninguém me acompanha
ou ouve
e sou um génio perpétuo
até que outra manhã nasça morrendo esta noite.

Relembro as memórias esquecidas de outros
que hoje leio em páginas amareladas de tempo.
Parecem-me confissões eternas,
ultimatos sangrentos de quem insulta uma guerra
para afinal defender-se.
Não se souberam explicar ou explicando erraram
porque as palavras mudam em cada um
e cada um munda conforme o seu pastor se faz entender. .

As memórias
foram caóticas e específicas assim mesmo,
clarividências em nós que as quisemos descobrir.
O entendimento é que foi sendo diferente
de outros para uns e de uns para outros
cegos sem saberem conhecer-se.

A noite morreu!
Volto a cerrar os olhos
e a dormir o sonho de 21 gramas. 

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Esta noite ardem as árvores da minha infância


Esta noite arde a terra das minhas saudades.

Imagino forçadas as sombras das urzes,o cheiro salgado da maresia e os gritos de uma natureza que sofre.Gentes olhando o inferno inteiro incrédulas e incapazes.

Não posso ajuda-la! E esta lágrima, caindo,não alcançará além a chamada.

Esta noite ardem as árvores da minha infância tão violentamente como a castração de estar agora longe sem acção. 

domingo, 15 de julho de 2012

Escuridão


Tenho medo da escuridão!
Não quero vê-la mas a sua força,
o seu jeito,
o seu silêncio inoculo que traz-me o seu presente.
E eu que não sei sonhar
aconchego-me no sofrimento calado de a conhecer.

Tenho medo da escuro
dos dias perdidos…
Dos tempos mortos,
da vida que existe, apenas.
Trago sempre uma noção de caos
que completa esse vazio
como um louco que atira vento de um farol,
inútil.
E a luz que produzo imaginando agora…

O dia tarda.
A noite cansa.

A vida acontece sem demais coragem
que esta de estar a pensar e escreve-la. 

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Um adeus marinheiro


Elas correm. Ó deus, como correm
pequenas e lúcidas
as lágrimas no meu rosto.

Amparo-as em mãos
como se as soubesse manter,
inteiras,
na sua razão original.
A dor é toda e o destino preciso
para a vida que tenho,
ainda.

Parte do porto o último navio velho
da navegação,
dos continentes onde habitei
na ilusão de uma ida definitiva e inteira.

Partes deixando memória da tua presença
nos olhares dos homens,
dos peixes que sobrevoaste,
na calçada de ondas moventes,
de ventos repentes.

Partes novamente de longe
e eu não te sei alcançar o mover
com que deixas atrás as ondas a ferver.
Partes novamente de longe
sem eu te poder acompanhar.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

A Ilusão de ser


Sabes sentir o mundo ao teu jeito
mas desdobram-te em éticas
e aprendes a ser comum.
Responder como todos o fazem
publicamente!

Sabes desafiar os sonhos
mas nunca soubeste equilibrar a vontade com o desejo!
Terminas a ilusão do teu próprio ser
aconchegado na certeza de uma conduta correcta
aos teus olhos cegos.

A tua verdade é a tua mentira
e a tua mentira é o que te magoa em silêncio.
Não sabes ser próprio!
A tua dívida de saberes toma-te submerso em razões
como se soubesses ameaçar o mundo com o teu sentimento.

Não sabes ser
a tua verdade. 

Um sonho...


Nunca sabemos negar um sonho
até que conhecemos a nossa realidade
ou a verdade
do nada que podemos .

Os sonhos confundem-nos!
São fáceis de encontrar,
cativam-nos a alma para depois se dispersarem
quando é menos viva a vontade e o trabalho
ou a sorte de os saber manter,
serenos.

Mas é tremenda a excitação
sabe-los amar na noite acordados.
Sentir cumprido um feitio
do defeito que fazemos da vida,
a nobreza de uma alegria
que cabe no peito como uma paixão antiga.
E se o esforço foi falível
maior é o ardor dessa comoção,
mais calma é a explosão dita.

Quem nunca cumpriu um sonho
não viveu com saberes secretos!

terça-feira, 15 de maio de 2012

Hoje guardo a consciência de já te ter perdido


Será um dia,
este dia,
a confirmação da tua distância,
da nossa indiferença,
pensada.

Trarei um sorriso terno sobre as memórias de agora
de sempre,
de quando somos alheios a nós próprios
e pensamos um no outro
sem ter necessidade ou intenção.

Hoje relembro o dia que virá
estampado com velhas emoções,
os primeiros degraus de um novo caminho
percorrido, então.

Hoje guardo a consciência de já te ter perdido
e certeza de não procurar-te. 

quarta-feira, 9 de maio de 2012

É a realidade que tenho


Chove lá fora,
ainda,
é a realidade que tenho!
Fui à janela saber como era o céu,
como poderia ser o dia
a luz de uma única estrela
se na noite as contamos mil.
Mas é dia lá fora e chove
e tenho estranheza de o saber
porque não encontro razão para a luz que me entra no quarto,
forçada,
forçando-me a pensa-la.
É esta a luz que cai como poalha por cima das nuvens
e húmida aqui,
na terra onde existimos por trás de uma janela, 
nestes dias. 

Porque não sei explicar o sol ou a lua
ou tudo o resto do que dizem ser um universo
guardo-me neste quarto,
neste infinito de mundo,
onde sempre haverá luz e escuridão 

e vida por sentir.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Esta noite pensarei em ti


O vento desce frio
da serra onde habitamos os nossos corações.
Recebo-o no rosto, sem acção,
como se fosse esse o meu cilicio
por te deixar.
Não por te ter amado ou desejado.
Por te deixar!
Pelo erro que tarde reconheci,
pela aspereza da minha calma quando choraste
ao dizer adeus.

Não tenho sossego nem desespero
mas fere-me o frio que antes esquecia
quando te tinha a meu lado.

Esta noite pensarei em ti. 

terça-feira, 3 de abril de 2012

Quem és tu...


Quem és tu 
que me deixas adormecer sem um abraço 
e acordar sem um beijo.
Que trazes no olhar o reflexo do meu silêncio,
a interpretação partilhada dos nossos desejos
e a atenção da minha alegria.
Quem és tu...

...que tardas?

domingo, 1 de abril de 2012

Não há razão...

Não há razão para a vida nem para a morte… 
Nem sequer para tudo isto a que chamam Humanidade!
Mas tudo tem um sentido ternurento, 
indefinido e encontrado sempre que tentamos pensa-la,
sem o dizer.

sexta-feira, 16 de março de 2012

Os loucos anos vinte


Os soldados da primeira grande guerra regressam a casa. As mulheres saem das fábricas, bélicas, e, sem que tivessem um cão que lhes enxugasse as lágrimas; decidiram que viveriam.
Sobreviventes e testemunhas sociais frente a um sistema político afundado em erros, ainda assim o mais capaz, decidiram que há mais no mundo que apenas trabalho.

Existem as famílias e os amigos, existem novos países, novas pessoas e ideias, existem… Existe uma sociedade!

Agora as horas que não são dedicadas ao labor gastam-se em passeios, nas esplanadas dos cafés, recentes, nos aniversários dos vizinhos… Não que antes nada disto acontecesse mas, agora, o prazer dedicado a tudo isto é menos ensombrado pela fatalidade da vida, ou então, aproveitado como se fossem os últimos dias. Como quem adivinhasse uma outra guerra. Um novo pensamento imposto, forçado! “O trabalho liberta,” dirão alguns, depois, sem noção do próprio erro.

As pessoas, frente a toda a sua brevidade, optam por viver a felicidade sempre guardada “para ocasiões especiais”.

Mudou-se a mentalidade, exageradamente, talvez; mas surgiram então os fundamentos da nossa individualidade e o mundo ganhou uma consciência universal.


Texto publicado na primeira edição da Revista Lacuna, (Madeira), pag. 12 .