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domingo, 31 de março de 2013

Hoje parto triste


Hoje parto triste…

“Nunca terás certezas nem de ti próprio.”
Livro dos Conselhos

Já não levo da vida tempo mas quis, ontem, visitar um velho amigo, um escritor que sempre soube ver o mundo e, talvez por isso, escrevia quase só para si.
Hoje parto por não saber pertencer ao grupo dos fracos. Fracos por teimosia. Fracos por se acomodarem em breves comentários entre cafés. “Está tudo mal… é a crise!”

Hoje parto pela necessidade de luta que há em mim. Hoje parto porque partem os jovens e não sabem que responder aos pais quase sós, aos meus parceiros de uma outra infância.
A sociedade falha de maneira assombrosa e as “máquinas” que nos poderiam mover calam-se. Não sabem apontar um caminho quando os primeiros passos foram seus e errados. Não sabem mudar o rumo e morrem antes mesmo do embate contra a própria realidade. E temos tantos afastamentos do que significa esse termo que às vezes acho abusivo um emprego tão estéril em discursos tão significativos. “A realidade atual…”

Visitei um companheiro que escreve, único e deforma capital, ensaios sobre dissoluções ideológicas e harmonias implacáveis quando um povo se ergue e constrói um futuro. Visitei-o para dizer-lhe adeus.

Portugal precisa de se encontrar fora dos brandos costumes de que às vezes se sente orgulhoso – disse-me. Nascemos todos do mesmo espírito mas só somos verdadeiramente portugueses quando abandonamos o país.
Sentimos saudades quando estamos longe mas trabalhamos arduamente para algo. O vermelho da bandeira não fala apenas do sangue derramado em guerras. Fala também dos laços de sangue que se partiram a alguns anos quando a emigração foi um remendo social. Fala das lágrimas derramadas então mais dolorosas que o sangue a escorrer das mãos ao tentar cultivar as terras para alimentar os filhos.
Se calhar devemos esvaziar o país até que todos saibam que dor sentem agora os jovens. Falta-nos visão…

Tentei ainda argumentar que este nosso mal é também culpa de outros. Respondeu-me baixo e claro, sem pressas. Não somos o mundo mas construímo-lo! Daí não podemos lavar as mãos!

Hoje abandono o meu país com a certeza de que alguém se preocupa com tudo aquilo com que cresci mas sei que as suas verdades nunca chegarão a ser a vontade de um povo!
“Contra os canhões marchar”… Enchem-se os pulmões a cantar quando as dores não são nossas. Este foi sempre o reflexo da nossa existência. Este será sempre o nosso futuro, presente e passado. 

Ass. Um Marinheiro


Este texto foi publicado na terceira edição da fanzine Lacuna.

Nunca me esqueci de ti

Nunca me esqueci de ti!
Pude, talvez, ser alguém
que não eu
e viver sob outras necessidades
mas nunca te esqueci.

Houve momentos, 
ou uma vida,

que criamos juntos e nunca esqueci.
Não soube,desde então, conhecer-me sem essas memórias,
sem essa paixão submersa em passados e risos
e tardes de sol a dourar as folhas no fim do verão.

Houve um momento de vida
depois apenas a saudade me conheceu
e a raiva pela minha falta a presenciar a tua ausência.
O corpo escasseia-me e engana...
Mas nunca me esqueci de ti!

Ass. O teu porto antigo...

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Enquanto não chegas 2


Escrevi o teu nome no vidro transpirado da janela. As gotas escorrem dele com a gravidade que merecem as lágrimas frias. Ainda chove mas não chega para molhar a solidão cá dentro. Espero-te sentado longe de mim.

Distingo agora um vulto diferente. Perdi de novo os óculos no escritório mas sei que és tu! Caminhas leve por entre a poalha breve da chuva, sem pressa, sem vagar, sem procurar outro pensamento que chegar a casa. Pensarás em mim? 
A minha pele ganha um despertar suave e não sei se devo esperar-te junto à porta com um beijo. Parece-me a acção desajeitada para quem sempre te teve alheada. Já não sei quem sou, porque me tens preocupado deste modo… Despertei da dormência da realidade, aprendi a ver por entre o infinito? 
Amo-te!
Surge-me agora a palavra desentendida, densa, desalinhada com a entoação com que a segredei neste silêncio. Não sei desconstruir o murmúrio que se criou no vazio dos passos que dou em volta. A ensurdecedora noção de vulnerabilidade perante alguém. 

Amo-te!
Não sei calar essa voz que é minha sem permissão.
Amo-te!

Tenho medo da luz e recuo da janela para a escuridão de um recanto. Olho a sala calada  em silêncio e espero que chegues. 

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Enquanto não chegas

Guardo junto à janela a minha atenção para rua. Faz frio e demoras. 
Desperto o cuidar sempre que um vulto surge ao fundo da calçada. Mas percebo que não és tu e suspiro de novo.
Demoras! Nunca sei esperar-te e hoje tenho tanto para te contar... 
O relógio parou na parede e a sua sombra é visível no escuro da sala. Resta do seu tempo o tempo de o concertar enquanto não chegas. Não o faço. Não quero! Espero-te esta noite. Espero para te amar, como quem tenha voltado à superfície depois de quase se perder num oceano profundo.
Pousei junto do livro que lias uma chávena quente de café. Ainda está morna mas morre e tu não chegas. E eu, suspenso, aguardo o silêncio rompido pela tua chave na porta.  
Demoras porque me fazes falta e eu não te sei esquecer. 

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

O nosso destino não é ficar


E quando eu pensava que já não conseguia navegar
cheguei até ti 
e perdi a incerteza que tinha no meu próprio querer. 
Dá-me a mão!
Caminhe-mos, juntos,
para lá dos nossos limites pessoais.
Para lá das amarras que nos tinham ancorados. 
O nosso destino não é ficar... 

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Abraça-me esta noite

Não me abandones esta noite!
Guarda-me no teu íntimo 
como a uma emoção que de mansinho te agrade.
Esta noite quero adormecer olhando os teus olhos
e as sombras inversas deste futuro. Abraça-me!

Não te direi mais nada!
Em silêncio posso contar-te os meus segredos,
se me deres a tua mão e eu souber desenhar-lhe
tudo o que será deste amor inaudito.
Abraça-me esta noite. 

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Nunca houve um adeus

Devia-mos encontrarmo-nos novamente.
Não como amantes,
como conhecidos que se tivessem apercebido da presença um do outro
e então cumprimentam-se sem demoras e delicadezas.

Gostava de poder dizer-te novamente como amo os teus olhos
e o jeito calmo que tinhas de me abraçares sempre que precisava
e nem me apercebia.

Mas parece-me a acção vaga porque nunca chegaste a partir,
verdadeiramente. Nunca houve um adeus.
O vazio que então surgiu quis responder a questões caladas
e deixamo-lo crescer, impacientes e jovens.

Deixamos de nos lembrar porque o permitimos
e começo a percebe-lo como um erro.
Ainda guardo o teu lenço...

Se calhar...


Se calhar já percebemos que não nos podemos pertencer,
se calhar...

Se calhar existem dias maiores! 
Quando te procuro na memória não há tempo 
e as horas crescem ai dentro desse vazio
que é ou foi
encontrares-me a atenção. 

Se calhar não foi a escolha das palavras
ou o modo como as contei que te afastou.
Se calhar não conhecemos afinal
aquilo que temos representado como amigos ou amantes
e é constante a leveza entre duas vontades profundas.

Se calhar é tudo um desejo romantizado.
Se calhar um inconsciente que então encontrou a luz
e um sentimento mais vivo no sangue.
Se calhar..

Culpado de mim mesmo

Eu poderia ser a culpa de mim mesmo
se então consciente dos meus sonhos
pudesse trabalha-los no real. 

Naquela noite...

Naquela noite não soubemos 
conter o fogo que traziam os nossos braços
e o jeito louco de nos termos, ali.
O nevoeiro roubava a distância da janela e a chuva 
estremecia no vidro calando o mundo lá fora.

Lembrei-me de ti
hoje que a chuva voltou. 
Hoje que a chuva molhou essa memória
e eu não a soube evitar.

domingo, 23 de setembro de 2012

Adeus...


Morreste-me! Não sabiam dizer mais que isto os olhares dos amigos que choravam, que ficavam e não sabiam estar. 
E eu, que mal te conhecia, imaginava um abraço de conforto que poderias dar-lhes se tudo isto não fosse verdade. Um abraço sem explicação,  sem peso ou tempo. Um abraço que fosse teu, apenas. 

Ali apercebemo-nos da intenção pouco firme da nossa existência. O estar e já não estar entre nós é, afinal, tão mais simples e real do que queremos. 

Não por medo encontraram-me o olhar, por vezes, ganhando a certeza de que não ficaram sós. Mas não soube que dizer... Não sei conhecer a tua importância na vida dos amigos que partilhamos mas sei-a grande e é esse todo o meu respeito pelo que fizeste. 

Resta-me de ti a memória de uma capa negra caída por cima de um caixão e a inconfidência de uma lágrima que não soube evitar nesse instante. 

Adeus João

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Saber-me confuso

Não sei caber dentro da minha medida
ou medir-me por outras ideias.
Assim penso, pensei, livre.

Depois encontrei medida no que outros julgavam
e comecei a entender-me.
Não em razão mas em silêncio.
Naquele silêncio que trás mordaz a consciência
seja lá o que isso for e que nos pesa tanto por não existir,
as vezes. 

Meço-me pelo que aprendo
e conheço-me ensinando.
E é este o cabimento que tem
saber-me confuso dentro de mim.   

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Olho a ilha sonhando...


De longe em longe uma terra
e o mar a estender-se para o horizonte.

É dia mas cai o sol 
e a noite vem silenciosa do outro lado da vila.
Do cais avisto a saudade do meu passado
e o desejo do meu presente.

Olho a ilha sonhando...

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Cais da Ponta do Sol



Terás sempre a força do mar banhada pelo sol
e o sal tingindo os instantes em que te lembro.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Deixamos de nos importar


Deixamos de nos importar aos poucos
e acabamos por esquecer o que era o desejo.
Acabamos sós 
juntos
sem explicação e jeito.

Não largues o meu abraço nocturno.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Não me julgues...


Despi de razões a consciência ao te amar
querendo mais que o teu desejo
um abraço sem memória de acabar.

Não me julgues as palavras
ou os sentimentos que te dei a beber.
Não lhes soube tirar a pureza vontade
e a verdade que o olhar encontrava. 
Não soube esconde-las,
esconder-me...

Eu era ingénuo e a vida 
forte demais para as minhas certezas. 
Não me julgues por te ter amado!

sábado, 11 de agosto de 2012

Desafio-te a partires-me o coração


As conversas ganharam à-vontade
e a pureza dos sonhos partilhados
nunca antes.
Ganharam uma energia própria,
uma razão inaudita, talvez. 
Tivemos medo de a pensar.

Então quiseste provar-me a coragem num desses momentos
quando eu já te dizia que gostava de ti.
Desafio-te a partires-me o coração,
ouvi-te sorrindo.
Peguei-te na mão a aproximar de ti o meu desejo
e olhando-te a atenção beijei-te.
Beijaste-me, beijamo-nos num “finalmente aconteceu”.
Como se fosse essa
a inevitável força de tanger duas almas que se encontram
ou o jeito perdido de conhecer a vida.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Fecharam a fábrica



Fecharam a fábrica!

Soube quando, cruzando a última esquina de um destino agora adiado, encontrei na rua as pessoas caladas. Vistas cansadas e tristes que olhavam as horas procurando explicações, uma frase de alento ou uma ponta de mentira naquilo tudo.


Aproximei-me já em passo desapertado e vagueando o chão com o olhar. Ao meu lado surgiu um colega que me encontrou a atenção para depois escapar-se num suspiro sem alento. Não soube encara-lo e não era isso mais que o seu desejo, um instinto ético.

Ficamos assim por instantes sabendo não saber salvar-nos dessa verdade.

Metemos mãos aos bolsos a trabalhar num jeito de nada fazer, esperando, e fomos sentarmo-nos do outro lado da estrada, de onde se podia olhar o portão do complexo e, além do gradeamento, a fábrica de que nada mais tínhamos. Permanecia calada e familiar e não soubemos odia-la.


Pequena ia a filha de alguém com quem trabalhei e parou. Pararam ambos, olhando-se, um de olhar vazio, outro cheio de lágrimas. Abraçaram-se sem poder nada contra esse momento, contra a imposta realidade.

A pequena não chorava, chorando-lhe a alma que portava o pai. Ela pequena encolhia-se no seu colo agarrando com força a camisa destoada. Não tinha noção do que fazia mas a consciência desse sentimento era todo seu.


Faltava, agora, à escola. Passaram momentos e tempos e a criança tornou-se no pai daquele homem. Era saturante o amor que ela lhe dava ao limpar com a mão pequena lágrimas adultas e fartas que lhe escorriam no rosto.

Houve um momento em que a espera sebastiana ganhou noção de si mesma e todos partiram do portão do complexo.

A pequena perdeu um pai firme em certezas mas ganhou uma compreensão adulta. O homem perdeu o trabalho mas encontrou a razão da sua tristeza, o amor que o fazia esforçar-se, que lhe dava o norte e sorriu quando voltou a casa, nesse dia.


E eu, que perdi também o trabalho, encontro conforto em saber como se rege o mundo. Como são ínfimas as certezas que levamos para o destino e como aprendemos na dor o que no desafogo esquecemos, muitas vezes. 

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Ao entardecer


Agora, no tardar do dia,
da noite,
devemos calar num beijo
as confissões que em silencio se teem feito ver,
nos olhares.

Se me quiseres dar a mão
poderei narrar como te tenho sonhado nestas noites 
em que estivemos longe.
Se me quiseres abraçar,
enfim…

Fica próxima da minha atenção
e dar-te-ei o cuidado que tive 
a descobrir um entardecer na ponta do sol.
Se me quiseres querer...

quinta-feira, 19 de julho de 2012

As memórias de outros


A noite liberta-me da responsabilidade de ser lógico
e a imaginação afunda-se num sonho desajeitado.
Ninguém me acompanha
ou ouve
e sou um génio perpétuo
até que outra manhã nasça morrendo esta noite.

Relembro as memórias esquecidas de outros
que hoje leio em páginas amareladas de tempo.
Parecem-me confissões eternas,
ultimatos sangrentos de quem insulta uma guerra
para afinal defender-se.
Não se souberam explicar ou explicando erraram
porque as palavras mudam em cada um
e cada um munda conforme o seu pastor se faz entender. .

As memórias
foram caóticas e específicas assim mesmo,
clarividências em nós que as quisemos descobrir.
O entendimento é que foi sendo diferente
de outros para uns e de uns para outros
cegos sem saberem conhecer-se.

A noite morreu!
Volto a cerrar os olhos
e a dormir o sonho de 21 gramas.