segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Como se a natureza não nos tivesse notado.

Havia no princípio do caminho
uma macieira de tronco branco,
sem folhas
e farta de frutos vermelhos.
Os tons simples das maçãs
tinham a vivência do sangue
quando sai de um músculo rasgado.
Observamo-la.

Aproximei-me, depois, pedindo-lhe um fruto.
Não me respondeu. Apanhei-o próximo!
Voltei e observamos juntos
aquele seu estoicismo simples,
de pé,
ao verter uma lágrima onde antes houve uma semente.

Quis saudar-nos, ou morrer,
e dobrou-se lentamente para o outro lado.
A força dramática do gesto acompanhou-a em silêncio,
muito próximo do limiar dos nossos sentidos.
Não se ouviram partir os ramos
ou o som lasso de um corpo que morre
caindo o baque de um último sentido.

Houve apenas a acção solitária
como se a natureza não nos tivesse notado.

Tragam-me sono...

Tragam-me sono e serei feliz,
sozinho.
Na exacta medida
daquilo que me trouxerem.


Como se eu fosse justo... Olhei as sombras do quarto.
Citei meus próprios desejos,
inacabados,
ao frio.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Desejei-te...

Desejei-te, por vezes,
mais concreta dentro das emoções.
Como quem não tenha mais que a vida
e o ar
e uma árvore plantada.

Lembro...

Lembro a borboleta vermelha
que foi pousar sobre o teu ventre livre.

Divagamos, sorrindo,
sobre os filhos que um dia tivéssemos,
que em manhãs ternas  nos invadissem o quarto
para se derramarem dentro do nosso amor.
Felizes.

Fois essa visão romantizada
que trouxe a nós a profundidade de um futuro juntos.

Calamo-nos.

Disseste, ao acordar...

Disseste, ao acordar, o meu nome,
primeiro.
Amei-te
o instante,
o brilho morno da tua pele,
a aspiração de vida no teu peito,
a calma do teu desejo.

Não por beijo, aproximaste o rosto do meu,
discreto o gesto
quente
sentindo-me.

Um dia perguntar-te-ão: amaste?
E dirás sem o saber
mais que o olhar encontra
no mundo...
Nunca foi só tua a vontade.

Sinto a tua alma presente,
à minha volta, abraçando-me,
definindo a vida em pequenos pormenores.
Não sei acreditar nesta manhã!

Olhaste-me um momento
depois continuaste.

Depois do voo da borboleta.

Tenho imaginado como seria uma vida que quisessemos construir,
uma vida que nunca imaginei partilhada...

Terminei-te o gesto com os lábios.

Podia...

Podia, em verdade,
mudar a vida.
A mão tremia-me!

Pus num futuro o teu leito e um filho meu
depois disse baixinho
- tenho medo -
mas não me ouviste...

domingo, 9 de outubro de 2011

Voltei...

Voltei em esforço aquela praia.
Já não te quis procurar...

O mar...
O mar ao longe murmurava,
de sosláio,
recolhendo cada vez mais a si as ondas.

Já não sei sonhar-te
e adormeço sempre em agonia.

Procurei-te

Procurei-te
como quem nunca tenha visto o mar.
Na cidade, como se não tivesses existido,
disseram-me que não te conheciam
sem encontrar nas respostas o teu nome.

Quis perceber...

Pensei ser mais um suicida
quando o meu corpo arrefeceu.
Senti um buraco na vida
onde, talvez,
se perca ela própria.
Nunca disseste como seria a saudade!

Foi este um primeiro ensaio sobre a minha lucidez.

A Penumbra...

A penumbra entra-me no quarto
e o quarto em mim.
Rodeio os lençois e não te encontro.
Como poderia...

Deixaste o quarto vazio!
Não foi esse o espaço que te pedi.
Acordamos a verdade,
juntos.

Já não sonho,
choro.
Choro sem luz.
Uma lágrima percorre o meu rosto
e caí lassa no chão. Sem vida.
Como se o sal fosse o seu veneno
e o veneno
o seu contentamento em exisir.

Não há palavra que a descreva
nem mão que a alcance e limpe.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

E tornou meu peito em vida...

E tornou meu peito em vida
Deixado nos caminhos a ida
O sentido da confusão.

Aclaram-se em ideias, pensamentos,
sobre vazios circunstanciais.
É neles que te procuro nas madrugadas
quando o orvalho ainda é fresco e virginal
e as horas permitem sonhos...

Mas a luz cresce e não sei fugir.
Dentro de cada sombra vejo segredo,
em cada flor emoção.
Por cada paisagem anseio
Sendo a alma, em vida, expressão…

domingo, 2 de outubro de 2011

Não sei

Não te sei encontrar nem te sei esquecer!

Desperto

Desperto mudo,
cedo,
senti o sono gasto,
a imobilidade prisão.
Encontra-te meu braço autómato
em repouso.
Dormes voltada a mim.

Pensei nelas brevemente.

Trago sem mais um cálice de malte,
puro,
e acendo outro cigarro.
tardo o olhar
no mar que sobra do recorte da janela.

As ondas regressam
para de novo renascerem
no abraço do oceano.

Pensei nelas brevemente.