terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

O dia em que nasceu a nossa verdade


O sol, desprendia a luz cristalina
de um meio dia métrico
e nós,
cobertos de clarividência caminhamos,
sorrindo sem o evitar,
julgando já ter desistido da coerência.

Em volta tudo era grandioso, belo
mas teimávamos em nos olhar.
Tínhamos a razão pura,
a loucura expansiva e insana da paixão.

Tardou pouco do instante e abraçamo-nos
sem respeito às razões,
deixando de sombras,
apenas a única que o sol desenhou nessa hora.

Não tivemos mais certezas
que o dia ter acabado rápido.
Notamos tudo isso quando o sol caiu, distante,
incendiando o horizonte
mais que a nossa paixão conseguia.

Foi assim que morreu o dia
em que nasceu a nossa verdade.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Deixem-me sonhar...


Tem-me fixo um olhar distante, terno,
sincera a revelação.
Segue-me a segurança de um sentimento,
dos que crescem na excentricidade da definição.
Exige atenção… Desejo-a!
Decidi abrir mão da razão e embarcar por aí,
com ela,
caminhando como quem voasse por cima de gritos de sensatez.

Não me prendam a vontade, não sou vosso escravo!
Escrevo porque gosto, porque gostam, não para vos agradar...
Escrevo para ela, que em silêncio me olha,
que em silêncio me deixa sonhar.
Escrevo porque me espera,
porque me sabe cativar.

Sonho, pela emergência que sinto de a amar… 
"Porque os sonhos, 
existem para serem realizados..."

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Não me peçam...


Não me peçam uma certeza quando nem sei se vivo.
Não me queiram sensível quando o castigo é merecido.
Sempre soubemos falar em justiça
mas se nos guiarmos pela psicologia todos são absolvidos,
se quisermos defender a sociedade
a solução é morrer-mos todos.

Não me peçam algo que nem vocês podem cumprir.
Não queiram ser os cínicos que vocês mesmos dizem odiar.

Sou como sou, humano!
Bom ou mau?...
Depende apenas do olhar que me dedicarem.

Sou outro de vós…

Não sei falar-te!


Não sei falar-te! As palavras ganharam um sentido que antes não tinham, tão concreto. Tudo o que penso ganha agora redobrada atenção por não ser uma frase bonita mas sentida, vivida. Por dentro de tudo o que digo há a força de mil vontades…
Tenho tido o cuidado de não exagerar mas é tão fácil ceder à vontade e dizer – amo-te…
Não quero a violência do tempo que passa mas a sua força, a sua presença, na vida que tens, na vida que eu quero, na vida que teremos, se quiseres acreditar.

Não te sei falar… como antes…
Sem dizer que te quero. 

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Um dia, se tu quiseres...


Um dia rendemo-nos as evidências
e partilhamos um beijo que começa a tornar-se denso de o pensar.
Um dia damos as mãos
e, caminhando, alcançaremos o nosso destino,
a nossa vontade, o nosso desejo.
Um dia, se tu quiseres…


Ilustração de Carolina Ascensão

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Uma carta ridícula

A Norte...

E sorrindo conhecemos uma verdade julgada fantasiosa.
Um desejo simples e forte,
um anseio imediato para rumar a norte,
dizendo:
“Tive medo de não te encontrar!”

Conquistas

Escrevendo conquistei um mundo. Amando conquistarei um universo.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Sentir-te

Sentir-te perto é não ter mais vida própria.

Aquilo que escondes

Tenho-te olhado, repetidamente, procurando nesse olhar o que no coração escondes.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Porque me seguras a mão?

Esperei o dia que caminhássemos
da sala de cinema, para um destino,
para segura-te a mão.
Caminhava-mos próximos,
sem diálogo,
entregues ao desejo, já pouco secreto,
de um beijo em meio momento.
Rápido como veneno que mata,
violento como a vida…
Foi quando me olhaste surpreendida
já com a pergunta feita,
ensaiada, talvez,
em silêncios:
“ porque me seguras a mão?”
Porque me tens preso? – pensei,
sem te responder.
Não travámos o caminho.
Não te respondi,
mas quis apertar mais um pouco
a mão que se entregava,
juntando-nos.
Amas-me? – perguntei, quase sem tom,
a palavra dita,
por fora de uma respiração assertiva.
Olhaste-me, inteira,
comprimindo no peito a ânsia.
A respiração esqueceu-se.
Tive subitamente uma bala no coração.
O sangue explodia em mim com força,
com vida,
com certeza.
Abracei-te num beijo demorado.
Amei-te!
Amei-te, com as forças que fazem arder o sol,
como quem tenha, então, respirado
depois de quase se afogar.

Essas foram as verdades que tive!
O momento que senti.
A vida que em ti renasceu,
nos teus lábios,
no meu peito!

Perguntei-me ,
na dispersão do meu ser,
se eras, afinal, o universo que procurava,
ou a prisão onde não quis ser empregue.
Como um homem que subitamente
toma em braços o filho que nasce
e ganha o medo do mundo
e a força de mil ensinamentos.

Esqueci a previsão de um erro intencional
que se assumiu sob a forma de sonho.
E, sonhando,
desenhei o meu caminho,
junto dos teus passos.

Não encontro...

Não encontro eixo dentro dos pensamentos que principiam com amor!

Só não sei dizer-lhe assim...

É este o caminho -
comentei comigo mesmo
como louco que se interpreta
discursando de si para si.
Eu que tantas vezes tenho compreendido o sol,
não sei responder à lua
se é isto verdade, vontade ou ilusão...
Amo-a, já disse,
por palavras que não essas
concretas, ou sérias.
Só não sei dizer-lhe assim –
amo-te!

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

O guião mental que não usei…

Interior. Noite. Em silêncio.


Eu tinha um guião mental preparado.
Tu chegarias
e eu teria a frieza para dizer – lamento –
mas, subitamente,
um rubor denunciou-me falso
e fugiste do meu plano dizendo – quero-te!
Preciso do teu beijo de boa noite
e do silêncio em que dizes
não vás por aí. Fica comigo!
Não sei manter enganadas
as vontades que te procuram.
Enquanto amigos somos,
fomos...
...sorridentes e distantes
mas agora não sei voltar atrás
e tenho-a junto ao peito,
acelerando o desejo,
castigando a minha vontade fria,
planeando o tempo para dois
num único momento…

... é essa a beleza de nos termos no coração.

Tinhas na noite o olhar
e eu desejei mais altas as estrelas,
não querendo, talvez, vê-las.
Ainda procuro um modo de caminhar!

Nesse instante não quis falar.
Calei as palavras sem dize-las.
Não admiti reconhece-las
sem te saber amar.

O momento ganhou emoção
e olhamos juntos para o futuro,
sozinhos, por entre toda a escuridão.

O destino perde-se na imensidão,
não há sempre um porto seguro
mas é essa a beleza de nos ter-mos no coração.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Uma realidade desejada em algum momento


A algazarra do dia passa,
passando a sombra,
a vida,
um espaço que surge por dentro
daquilo que sou
ou fui, ou quis ter sido.
Esse alguém que me abraçou sem ter existido,
esse vento que espalhou as folhas que nunca escrevi.

Fui buscar ao quarto lembranças
que guardei,
escritas,
descritas memórias de nós,
e então pensei em tudo não o que aprendi contigo
mas aquilo que de mim partiu em reflexo.
Amei-te sozinho
como a um ensaio de vida
que te aborda o coração.

Senti, então, a escuridão crua
por um amor que ousei
sem sofrer,
imaginando,
findou o dia.

Sinto falta da tua pele quente
e do modo suave de me olhares.
Sinto saudades
por entre o meu exagero
e uma realidade desejada em algum momento.


Ilustração de Carolina Ascensão

É um amor que nasce

Tenho encontrado sentimentos julgados ao mito
e tudo o que reconheço
é a insegurança do que entendo em ti
ser meu o efeito.

É um amor que nasce
e faz-me descobrir outros nortes.
As atenções mordazes que subitamente
me despertam para ti...

Sentir o teu braço
que longamente se encosta ao meu,
nosso o segredo,
de estar-mos juntos sem mais atenções.

Achar um olhar mais atento,
em nós,
que trás um rubor esquecido de vida.

As conversas que procuramos manter
longas

horas em sorrisos.

O beijo que ambos desenhamos
ao encontrar os rostos próximos,
num momento…



Decidi dedicar-te a alma em gesto
como quem tivesse no fio da navalha
o olhar mais quente.

A rotina de um enforcado

Interior. Quarto. Meia tarde.


O enforcado fuma à janela
sem tempo
enquanto olha profissionalmente as pessoas
na praça que antevia.
Dá-lhes a atenção cuidada e particular
descobrindo os seus simbolismos,
e significações ocas,
os seus discursos meticulosos
as suas
representações dramaticamente sociais.
Assim tem vivido o mundo
entre si mesmo e aquilo que é.


O enforcado leva a mão à corda
e solta-a do pescoço.
Aperta a gravata e sai de casa
vivendo, talvez já arrependido,
o sufoco renovado do seu ser social.


Esta é a rotina de um enforcado
repetida.
Repetidos sem sacrilégios.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Quero dizer-te...

Quero dizer-te que esperes,
amo-te!

Quero ir contigo
aonde vais a sorrir
ou em mágoas chorando,
a vida...
Caminharei a teu lado em silêncio,
se preferires,
e o céu sobre nós será nocturno.

Espera na estrada
junto do sentido em que iremos,
serenos,
procurar um equilíbrio partilhado
para os nossos dias de paixão…

Brinca comigo

                       
                             …para a Núria


Brinca comigo
na soleira da porta por onde entramos
nos recantos de um amor familiar.
Trouxe os brinquedos!


Brinca comigo
todas as ilusões que eu consiga criar
e os gestos que tu sabes repetir.


Brinca comigo
fazendo do tempo trapo enquanto eu cresço
e aprendo a adivinhar
o carinho que tens por mim.


Brinca comigo
mais uma vez
antes de partires.

Todos os dias são dias de amor

Todos os dias são dias de amor.
Não sendo, são dias
apenas
em que os seres coabitam
procurando nos outros a si mesmos
em metade
por fim completos


Todos os dias são dias de amor
pelos namorados,
pelas mães,
pelos irmãos,
por aqueles que nos importam
e queremos, em silêncio, abraçar
quando cai perto a tristeza


Todos os dias são dias de amor


e este
é o dia em que te amo!

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Aquele ser que me ouviu olhando as estrelas

Ontem procurei saber de estrelas.
Havia no ar clareza e quis descobri-las.
Olhei-as sem tempo,
sem interrupções,
sem a força das significações.


Mas não coube em mim toda essa atenção
e acercou-se do meu espaço, por cima de um muro,
um ser que ouvia
desatentas as respirações…
Saudei-o como a um velho amigo
e seguimos contemplando as estrelas
cada um usando o seu entendimento sobre elas.


Nada houve que precisássemos de dizer
e despedimo-nos depois,
mais tarde.
Apontei tudo isso, algures,
sabendo criar uma memória forçada
se um dia reler as palavras
que falam sobre esse gato pardo.

Descobri-te um sorriso

Descobri-te um sorriso verdadeiro
e a beleza desse momento...
Descobri, em ambos,
momentos de retracção nas palavras,
adiados gestos,
reflectidos segredos breves.


Quis a verdade, sem dize-lo,
amar-te a alma
beijando-te o corpo
e ser, no prolongar da vida,
assim, feliz.


Procuro a atenção que me escapa
e o retorno de uma vontade.
O sorriso que te descobri
numa manhã, talvez, tardia.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Sempre que ouso pensar-te a meu lado

Sempre que ouso pensar-te a meu lado
tenho no peito o suspiro da imaginação
não sendo verdade a acção
real o sentir.


Trago então o ensinamento do tempo.
Aquele tempo capaz de criar memórias
não pela sua duração mas pelo efeito que produz
dentro do meu ser.
É esse passado que tenho presente ao pensar-te,
é esse o tempo que temos juntos.


Espero
reescrever estas linhas com o tempo passado…

Se eu voasse...

Se eu voasse iria questionar esse facto.
Não por ser uma anomalia física mas uma questão humana.

Visitei um velho escriba

Visitei um velho escriba
que antes da idade fez parte do meu passado.
Escutei-o quando o olhei na entrada
e senti que queria soltar alguns sentidos seus,
senti uma necessidade brava no seu entender…


Tereis de mentir
ao mártir que vier ao teu encontro!
Contar-lhe o que será o seu desejo fervente
deixando-o, depois,
partir com o seu deus fraseado nos dentes,
com a sua cura na cova da boa vontade.


Porás, depois, no firmamento o olhar,
a procura de um saber concreto
e dirás baixinho: não quero mais escrever!


Será hora de findar a letra
de um caderno rasurado em continuidade?


Se as palavras se consomem frenéticas,
se os assertos não coincidem com o desejo
e o sentido foge do anseio
então é hora!


À sua frente pousada, meia folha escrita
existe.
Há nela um sofrimento calado por dentro,
por cada palavra rasurada
um sentido se esvai sem acabamento.


De meio livro se aproxima
uma alma que se rebaixa e consome
querendo compreender nos pormenores
todo o gesto que deve descrever uma vida.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Passou uma mulher anónima

Passou, por mim, uma mulher com o rosto gasto pelo ensino de dois filhos. Uma, outra, terrivelmente vencida pelo comodismo sedentário caminha pesada e feia em sentido oposto.
Não se encontram, olham ou falam. A ligação é minha entre elas. Por serem a essência de uma sociedade onde a mulher tornou-se numa pessoa. Depois de ser objecto, depois de ser uma deusa!
A mulher tornou-se humana do mesmo modo que o homem, invisível. Tudo por comum julgamento numa rua qualquer, numa cidade anónima, num país igual.
O que é afinal ser-se humano se não nos vemos?