quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Os dias em Lisboa


Deixamos para trás Lisboa
e as ruas
para seguirmos caminho.
E a certeza que tínhamos levada
era a de não esquece-la
ou assombra-la com o tempo.

Há dias em que me ponho a pensa-la
mas não a encontro sem ti 
a correr para um eléctrico 
ou de uma hora inesperada.

As saudades encontram-se, 
nessas tardes, nas esplanadas, 
no sabor de uma alegria retornada,
no jeito que houve em perpetua-la. 

Ao entardecer


Agora, no tardar do dia,
da noite,
devemos calar num beijo
as confissões que em silencio se teem feito ver,
nos olhares.

Se me quiseres dar a mão
poderei narrar como te tenho sonhado nestas noites 
em que estivemos longe.
Se me quiseres abraçar,
enfim…

Fica próxima da minha atenção
e dar-te-ei o cuidado que tive 
a descobrir um entardecer na ponta do sol.
Se me quiseres querer...

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Nem nos sabemos olhar

Tardamos a conhecer-nos
e o mundo apartou-se do nosso alcance.
Vivemos de memórias,
de incertezas,
de jeitos inacabados de nos receber
que nem nos sabemos olhar, sequer,
para lá de um ego degastado à tua forma.

Começamos a findar percepção de um carinho,
sem sabe-lo maior,
conhecemos o teu abraço certo
e a certeza do seu desejo. 

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

No alpendre

Naqueles dias pedias silêncio 
até que conseguisses escutar-me o peito.
E a noite regressava com as certezas que não percebias,
como uma palavra que ainda não tivesse sido inventada
para falar de nós.

Havia sempre uma brisa breve no alpendre
e as lâmpadas a absorverem, nuas, a escuridão,
a sombra completa de um destino.
Eu olhava-te com os braços à volta do teu corpo
e recordava o sabor da tua boca. 
Sorrias.

Sorrias... 

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

O sol, o mar e as memórias

Foi este o sol que me cresceu
quando jovem adormecido
nas costas de um futuro sem traço,
no tom de um sentido.

Trago de seu o mar
no rosto, nos olhos a brilhar,
no gesto que soube ser meu,
na voz que parece faltar.

Então guardo, cego, essas memórias
para saber sorrir,
o mundo tem de ser falível.

Como sabemos olhar-nos calados…

sábado, 28 de julho de 2012

A rua a descer a cidade

Será a incerteza de uma segurança,
ou o verso do seu dizer,
a nostalgia de todos os outros dias
em que olhei pela janela a rua a descer a cidade
e a manhã que amanhã seria diferente.


Estarei mais cansado,
mais velho e moribundo.


Darei alento a realidade de hoje até sempre,
para não mais voltar,
guardo a leitura da nossa memória...


...sem te conseguir olhar.
Como se fosse essa a confidência
por um arrependimento sem acção completada.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Num abraço perpétuo


Era a tua silhueta nua a roçar-me a calma
para surgir sedento
um beijo a tocar-te a alma.

Então o teu corpo recebeu, calado,
um novo jeito de abraçar.
E foi no teu peito 
que derramei o meu controlo ao dizer, amo-te.

Não soube pronunciar essa palavra tão estranha
e repeti-a, compassadamente, e em voz baixa
até que na força de um novo abraço
confirmaste as palavras. 

Sentimos medo 
ao assumir a responsabilidade de uma inconfidência,
a razão de um íntimo
e deixamos a nossa vontade calada
num abraço perpétuo. 

Soubemos deixar-nos quando o dia nasceu
e as sombras da nossa certeza esbateram-se. 



domingo, 22 de julho de 2012

A verdade é que nunca te esquecerei


A verdade é que nunca te esquecerei.
Não pelas saudades
mas aquilo que de ti ficou,
aquilo que me constrói a alma
e a vida.

Ainda lembro o jeito de me conheceres. 

quinta-feira, 19 de julho de 2012

As memórias de outros


A noite liberta-me da responsabilidade de ser lógico
e a imaginação afunda-se num sonho desajeitado.
Ninguém me acompanha
ou ouve
e sou um génio perpétuo
até que outra manhã nasça morrendo esta noite.

Relembro as memórias esquecidas de outros
que hoje leio em páginas amareladas de tempo.
Parecem-me confissões eternas,
ultimatos sangrentos de quem insulta uma guerra
para afinal defender-se.
Não se souberam explicar ou explicando erraram
porque as palavras mudam em cada um
e cada um munda conforme o seu pastor se faz entender. .

As memórias
foram caóticas e específicas assim mesmo,
clarividências em nós que as quisemos descobrir.
O entendimento é que foi sendo diferente
de outros para uns e de uns para outros
cegos sem saberem conhecer-se.

A noite morreu!
Volto a cerrar os olhos
e a dormir o sonho de 21 gramas. 

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Esta noite ardem as árvores da minha infância


Esta noite arde a terra das minhas saudades.

Imagino forçadas as sombras das urzes,o cheiro salgado da maresia e os gritos de uma natureza que sofre.Gentes olhando o inferno inteiro incrédulas e incapazes.

Não posso ajuda-la! E esta lágrima, caindo,não alcançará além a chamada.

Esta noite ardem as árvores da minha infância tão violentamente como a castração de estar agora longe sem acção.