sexta-feira, 30 de março de 2012

Até que saiba para onde vou


Caminhava não rua, já não sei em direcção ao quê, e fui abordado por uma ideia. Ao início pareceu-me um pouco desprezível. Tentei não dar-lhe atenção e continuar o meu percurso. Encara-la rapidamente como se ponderasse por um segundo a hipótese de escuta-la e depois, num rápido acordo silencioso, diria que não valia a pena a acção. E continuaríamos em sentidos opostos.
Foi isto que quis fazer mas não consegui.
Parei no meio da rua a olha-la. Não havia nada que me fizesse escuta-la mas não consegui mover-me e ela aproximou-se mais, devagar, estranha.
Não houve perguntas nem justiças. A ideia tomou-me por completo enquanto caminhava arrastando um passado para ... Soltei-o, instintivamente. Ou pelo instinto do que adivinhava, pelo que me dizia a ideia cá por dentro.
O passado pesa nos sonhos que adias… Não penses mais nela!
E como se subitamente ganhasse nova energia comecei a caminhar. Tornou-se pequena a distração e então entendi ser mais que aquilo a que me reduzi. Tive a noção e a consciência que existe mais em mim do que os outros me sabem.
Agora caminho breve, até que saiba para onde vou. 

terça-feira, 27 de março de 2012

“Horror Vacui” (medo de espaços vazios)


Vagueiam por casa sombras daquilo que fizemos juntos!
Preciso, necessariamente, sair de lá todas as madrugadas antes de adormecer a noite e subir a cidade até encontrar o sol que paira sobre a neblina. E a neblina que nos abafa a casa, lá em baixo, agora.
Não sei adormecer sem ter a certeza que a casa respira ao sol. E porque nunca te encontro no regresso torno a repetir a acção na madrugada seguinte.
Como se fosse inevitável esse sacrifício para recordar que existo, que existe o mundo sobre o qual criamos um olhar conjunto. É assim que ainda vejo a cidade. Mas a casa…
A casa continua vazia!
E não sei adormecer antes do sol despertar.

...a possível correcção da minha alma.


Sinto ainda a suavidade da tua pele junto de mim, o abraço quente e silencioso e a atenção que me dedicaste.
Não sei que sentido encontrar nesse momento ou o desejo que tive! Não sei se os beijos que evitamos seriam bons e a sua suavidade a possível correcção da minha alma.
Não sei dizer-te o respeito que tive a passear pelo teu corpo sem nos comprometermos mas sei que o desejei. Para além dos abraços e dos olhares ternos, para além das horas em que partilhamos os nossos pensamentos e verdades. 

Carta descontinuada ao mundo… ao teu mundo. 2


E se eu decidisse dizer-te todas as barbaridades que se movem como uma massa gigante e densa sobe o meu inconsciente? Explicar-te que nem tudo na vida se resume a impulsos. Que a única coisa que conseguiste, afinal, foi tornares-te numa pessoa barata… Desprezível!
Não sei até que ponto tudo isto ganha a minha sinceridade e reflecte a tua realidade mas conheço estas palavras desde que acordei.
E a raiva que sinto por tudo… Se te pudesse abraçar…
A primeira vez que li Ricardo Reis achei-o assustado perante os frutos da vida e hoje reconheço tanto valor nas suas palavras que me sinto vergar.

“Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois
Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
    Nem fomos mais do que crianças.”

Ao menos se cumprirmos a promessa calada de não mais olharmo-nos o rio fluirá. Triste, chegará à sua foz e perder-se-á no oceano que banha a minha terra e as pessoas saberão de mim, de nós, sem nos conhecerem os nomes.
Alguém escutará o seu bramido nas tardes de inverno e poderá dizer que algo nos tem calado. E não saberão escutar os que te confessam…
E quando finalmente o mar acalmar eu estarei em casa.
Quando o mar acalmar tu estarás com as flores mortas no teu regaço. Com a lágrima de arrependimento mais viva ainda e um casaco esvoaçando junto à barragem, por cima das rochas, onde nasceu a nossa, minha, dor.
Onde enlaçamos as mãos… 



segunda-feira, 26 de março de 2012

Ao fundo da cidade a neblina cobre as casas...


Sacudo, sem demoras, o corpo da minha dormência,
levanto-me e vou à janela.
O dia nasce, outra vez, e eu ainda acordado…
Ao fundo da cidade a neblina cobre as casas
e é como se volta-se à minha ilha onde vejo sempre o mar.
Lembro a imensidão da sua bravura quando brame no inverno
e eu fico a imaginar as palavras que diria aos homens
se lhes pudesse falar.

O dia nasce calmo, desfocado ao longe e sem vento.
Um fotógrafo que então o observa-se diria
- Quase sem tempo – como se soubesse do que fala
quem trabalha sempre sobre o passado.

Não quero escrever mais
e mais penso que o deveria fazer.
O cansaço e a falta de ideias definidas levam-me à cama
e adormeço
sem ter encontrado a razão de tanto esforço,
a razão de ter ficado acordado,
olhando as tuas fotos. 

domingo, 25 de março de 2012

Não te sei esquecer


Trago vazio o olhar
de onde a minha boca foi beber.
Trago o silencio a latejar,
a última memória de te receber.

E é tão simples a razão,
tão sereno o sentido
que tenho ainda próximo ao ouvido
o segredo da tua decisão.

Refrão
Fere-me o desejo de te abraçar,
cega-me a vontade que de te ver
mas não te sei encontrar
nem te sei esquecer.

Se me conhecesses a alma
e pudesses ler a vontade
saberias que esta confidente calma
fere como morde a saudade.

Em silêncio sinto a saudade crescer
quando uma lagrima começa a escapar
mas lembro que não me sabes amar
e eu não te sei compreender.

Carta descontinuada ao mundo… ao teu mundo.


Não sei como reagir
agora que trazes no olhar a memória do teu erro.
Não procuro conforto
mas tem sido difícil esquecer-te.

Ainda me acho a imaginar que tudo podia acontecer de outra maneira
mas então reconheço o quanto foste falsa
e tenho mais amarga a dor de te querer evitar.

Nessa noite não quis adormecer!
Fiquei inquieto por me sentir frágil
e não ter a calma suficiente confiar na natureza.
A minha própria descrença no céu fazia-me delirar.
Mas o corpo exigiu-me descanso
ou cairia, por terra, sem que conhecessem a acção
todos os que, afinal, nos confessam.

Vieste prometer-me compreensão…
Beijaste-me a testa…
E o silêncio encheu o quarto...

Acordei sem ti,
sem o sonho.
Acordei e caminhávamos lado a lado
para sítios diferentes
e eu não consegui encontrar realidade no momento…
Levantei-me quase sem luz,
cego!
Apercebi-me que vivia uma ilusão
onde brilhava perfeito o teu sorriso.
Não soube reagir…
Não sei como reagir…

E esta noite já não quero adormecer.

quarta-feira, 21 de março de 2012

As palavras...


As palavras
são, às vezes, o fim de olhares inacabados
onde o desejo vai beber sem preocupação.

terça-feira, 20 de março de 2012

É tão fácil julgar...


É tão fácil julgar…
E existem tantas razões no mundo pelas quais sangrar
que torna-se incrível acreditar no que faço
como conhecer a razão disso…


Não sei, ainda, porque te quero abraçar.

sexta-feira, 16 de março de 2012

Que diferença faço...


Tantas têm sido as vezes que não soube reagir
e a vida tem continuado
que não conheço a diferença que faço em tudo isto que é ser eu próprio.