segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Deixamos de nos importar


Deixamos de nos importar aos poucos
e acabamos por esquecer o que era o desejo.
Acabamos sós 
juntos
sem explicação e jeito.

Não largues o meu abraço nocturno.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Podes odiar-me...


Podes odiar-me…
E as palavras que já não te dou.

Podes não querer olhar-me e dizer que sentes saudades
e eu continuarei a saber que me tens,
de certa forma, contigo.
Que ecoam em ti 
memórias dos meus devaneios.

Podemos viver de distâncias.

Eu calo-me por te perder
mas sei que vais acreditar no meu silêncio.
Sei que irás encontrar o teu caminho.

Encontrei-me...


Antigamente, eu teria no peito tristeza
ou sem jeito e beleza
uma mágoa forçada de o saber.
Fui sofrível,
por assim dizer,
e os gestos eram reais de tão falsamente repetidos
que partiram sem sentidos
ou direções que lhes desculpassem a vinda.

Encontrei-me,
julgo,
sem saber precisar o gesto imaterial.
Ainda tenho nos olhos lágrimas
por isso a realidade ainda é turva…

E se antes foi cega
não me soube dizer.

Dentro da noite


É dentro da noite
que minto a mim mesmo ao esquecer-te.
Porque soube não te perder
e é errado amar-te. 

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Não soube voltar.


A cada linha escrita 
perco-me um pouco mais
como quem tivesse de engolir o sol
e não lhe encontrasse razão. 

Chamaram-me e não soube voltar. 

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Não me julgues...


Despi de razões a consciência ao te amar
querendo mais que o teu desejo
um abraço sem memória de acabar.

Não me julgues as palavras
ou os sentimentos que te dei a beber.
Não lhes soube tirar a pureza vontade
e a verdade que o olhar encontrava. 
Não soube esconde-las,
esconder-me...

Eu era ingénuo e a vida 
forte demais para as minhas certezas. 
Não me julgues por te ter amado!

sábado, 11 de agosto de 2012

Desafio-te a partires-me o coração


As conversas ganharam à-vontade
e a pureza dos sonhos partilhados
nunca antes.
Ganharam uma energia própria,
uma razão inaudita, talvez. 
Tivemos medo de a pensar.

Então quiseste provar-me a coragem num desses momentos
quando eu já te dizia que gostava de ti.
Desafio-te a partires-me o coração,
ouvi-te sorrindo.
Peguei-te na mão a aproximar de ti o meu desejo
e olhando-te a atenção beijei-te.
Beijaste-me, beijamo-nos num “finalmente aconteceu”.
Como se fosse essa
a inevitável força de tanger duas almas que se encontram
ou o jeito perdido de conhecer a vida.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Fecharam a fábrica



Fecharam a fábrica!

Soube quando, cruzando a última esquina de um destino agora adiado, encontrei na rua as pessoas caladas. Vistas cansadas e tristes que olhavam as horas procurando explicações, uma frase de alento ou uma ponta de mentira naquilo tudo.


Aproximei-me já em passo desapertado e vagueando o chão com o olhar. Ao meu lado surgiu um colega que me encontrou a atenção para depois escapar-se num suspiro sem alento. Não soube encara-lo e não era isso mais que o seu desejo, um instinto ético.

Ficamos assim por instantes sabendo não saber salvar-nos dessa verdade.

Metemos mãos aos bolsos a trabalhar num jeito de nada fazer, esperando, e fomos sentarmo-nos do outro lado da estrada, de onde se podia olhar o portão do complexo e, além do gradeamento, a fábrica de que nada mais tínhamos. Permanecia calada e familiar e não soubemos odia-la.


Pequena ia a filha de alguém com quem trabalhei e parou. Pararam ambos, olhando-se, um de olhar vazio, outro cheio de lágrimas. Abraçaram-se sem poder nada contra esse momento, contra a imposta realidade.

A pequena não chorava, chorando-lhe a alma que portava o pai. Ela pequena encolhia-se no seu colo agarrando com força a camisa destoada. Não tinha noção do que fazia mas a consciência desse sentimento era todo seu.


Faltava, agora, à escola. Passaram momentos e tempos e a criança tornou-se no pai daquele homem. Era saturante o amor que ela lhe dava ao limpar com a mão pequena lágrimas adultas e fartas que lhe escorriam no rosto.

Houve um momento em que a espera sebastiana ganhou noção de si mesma e todos partiram do portão do complexo.

A pequena perdeu um pai firme em certezas mas ganhou uma compreensão adulta. O homem perdeu o trabalho mas encontrou a razão da sua tristeza, o amor que o fazia esforçar-se, que lhe dava o norte e sorriu quando voltou a casa, nesse dia.


E eu, que perdi também o trabalho, encontro conforto em saber como se rege o mundo. Como são ínfimas as certezas que levamos para o destino e como aprendemos na dor o que no desafogo esquecemos, muitas vezes. 

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Os dias em Lisboa


Deixamos para trás Lisboa
e as ruas
para seguirmos caminho.
E a certeza que tínhamos levada
era a de não esquece-la
ou assombra-la com o tempo.

Há dias em que me ponho a pensa-la
mas não a encontro sem ti 
a correr para um eléctrico 
ou de uma hora inesperada.

As saudades encontram-se, 
nessas tardes, nas esplanadas, 
no sabor de uma alegria retornada,
no jeito que houve em perpetua-la. 

Ao entardecer


Agora, no tardar do dia,
da noite,
devemos calar num beijo
as confissões que em silencio se teem feito ver,
nos olhares.

Se me quiseres dar a mão
poderei narrar como te tenho sonhado nestas noites 
em que estivemos longe.
Se me quiseres abraçar,
enfim…

Fica próxima da minha atenção
e dar-te-ei o cuidado que tive 
a descobrir um entardecer na ponta do sol.
Se me quiseres querer...

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Nem nos sabemos olhar

Tardamos a conhecer-nos
e o mundo apartou-se do nosso alcance.
Vivemos de memórias,
de incertezas,
de jeitos inacabados de nos receber
que nem nos sabemos olhar, sequer,
para lá de um ego degastado à tua forma.

Começamos a findar percepção de um carinho,
sem sabe-lo maior,
conhecemos o teu abraço certo
e a certeza do seu desejo. 

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

No alpendre

Naqueles dias pedias silêncio 
até que conseguisses escutar-me o peito.
E a noite regressava com as certezas que não percebias,
como uma palavra que ainda não tivesse sido inventada
para falar de nós.

Havia sempre uma brisa breve no alpendre
e as lâmpadas a absorverem, nuas, a escuridão,
a sombra completa de um destino.
Eu olhava-te com os braços à volta do teu corpo
e recordava o sabor da tua boca. 
Sorrias.

Sorrias... 

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

O sol, o mar e as memórias

Foi este o sol que me cresceu
quando jovem adormecido
nas costas de um futuro sem traço,
no tom de um sentido.

Trago de seu o mar
no rosto, nos olhos a brilhar,
no gesto que soube ser meu,
na voz que parece faltar.

Então guardo, cego, essas memórias
para saber sorrir,
o mundo tem de ser falível.

Como sabemos olhar-nos calados…