Fecharam a fábrica!
Soube quando, cruzando a
última esquina de um destino agora adiado, encontrei na rua as pessoas caladas.
Vistas cansadas e tristes que olhavam as horas procurando explicações, uma
frase de alento ou uma ponta de mentira naquilo tudo.
Aproximei-me já em passo
desapertado e vagueando o chão com o olhar. Ao meu lado surgiu um colega que me
encontrou a atenção para depois escapar-se num suspiro sem alento. Não soube
encara-lo e não era isso mais que o seu desejo, um instinto ético.
Ficamos assim por
instantes sabendo não saber salvar-nos dessa verdade.
Metemos mãos aos bolsos a
trabalhar num jeito de nada fazer, esperando, e fomos sentarmo-nos do outro lado
da estrada, de onde se podia olhar o portão do complexo e, além do gradeamento,
a fábrica de que nada mais tínhamos. Permanecia calada e familiar e não
soubemos odia-la.
Pequena ia a filha de
alguém com quem trabalhei e parou. Pararam ambos, olhando-se, um de olhar
vazio, outro cheio de lágrimas. Abraçaram-se sem poder nada contra esse momento,
contra a imposta realidade.
A pequena não chorava,
chorando-lhe a alma que portava o pai. Ela pequena encolhia-se no seu colo
agarrando com força a camisa destoada. Não tinha noção do que fazia mas a
consciência desse sentimento era todo seu.
Faltava, agora, à escola.
Passaram momentos e tempos e a criança tornou-se no pai daquele homem. Era
saturante o amor que ela lhe dava ao limpar com a mão pequena lágrimas adultas
e fartas que lhe escorriam no rosto.
Houve um momento em que a
espera sebastiana ganhou noção de si mesma e todos partiram do portão do
complexo.
A pequena perdeu um pai
firme em certezas mas ganhou uma compreensão adulta. O homem perdeu o trabalho
mas encontrou a razão da sua tristeza, o amor que o fazia esforçar-se, que lhe
dava o norte e sorriu quando voltou a casa, nesse dia.
E eu, que perdi também o
trabalho, encontro conforto em saber como se rege o mundo. Como são ínfimas as
certezas que levamos para o destino e como aprendemos na dor o que no desafogo
esquecemos, muitas vezes.
Padrinho, a prosa também te fica muito bem :) **
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