sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Fecharam a fábrica



Fecharam a fábrica!

Soube quando, cruzando a última esquina de um destino agora adiado, encontrei na rua as pessoas caladas. Vistas cansadas e tristes que olhavam as horas procurando explicações, uma frase de alento ou uma ponta de mentira naquilo tudo.


Aproximei-me já em passo desapertado e vagueando o chão com o olhar. Ao meu lado surgiu um colega que me encontrou a atenção para depois escapar-se num suspiro sem alento. Não soube encara-lo e não era isso mais que o seu desejo, um instinto ético.

Ficamos assim por instantes sabendo não saber salvar-nos dessa verdade.

Metemos mãos aos bolsos a trabalhar num jeito de nada fazer, esperando, e fomos sentarmo-nos do outro lado da estrada, de onde se podia olhar o portão do complexo e, além do gradeamento, a fábrica de que nada mais tínhamos. Permanecia calada e familiar e não soubemos odia-la.


Pequena ia a filha de alguém com quem trabalhei e parou. Pararam ambos, olhando-se, um de olhar vazio, outro cheio de lágrimas. Abraçaram-se sem poder nada contra esse momento, contra a imposta realidade.

A pequena não chorava, chorando-lhe a alma que portava o pai. Ela pequena encolhia-se no seu colo agarrando com força a camisa destoada. Não tinha noção do que fazia mas a consciência desse sentimento era todo seu.


Faltava, agora, à escola. Passaram momentos e tempos e a criança tornou-se no pai daquele homem. Era saturante o amor que ela lhe dava ao limpar com a mão pequena lágrimas adultas e fartas que lhe escorriam no rosto.

Houve um momento em que a espera sebastiana ganhou noção de si mesma e todos partiram do portão do complexo.

A pequena perdeu um pai firme em certezas mas ganhou uma compreensão adulta. O homem perdeu o trabalho mas encontrou a razão da sua tristeza, o amor que o fazia esforçar-se, que lhe dava o norte e sorriu quando voltou a casa, nesse dia.


E eu, que perdi também o trabalho, encontro conforto em saber como se rege o mundo. Como são ínfimas as certezas que levamos para o destino e como aprendemos na dor o que no desafogo esquecemos, muitas vezes. 

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