Interior. Quarto. Meia tarde.
O enforcado fuma à janela
sem tempo
enquanto olha profissionalmente as pessoas
na praça que antevia.
Dá-lhes a atenção cuidada e particular
descobrindo os seus simbolismos,
e significações ocas,
os seus discursos meticulosos
as suas
representações dramaticamente sociais.
Assim tem vivido o mundo
entre si mesmo e aquilo que é.
O enforcado leva a mão à corda
e solta-a do pescoço.
Aperta a gravata e sai de casa
vivendo, talvez já arrependido,
o sufoco renovado do seu ser social.
Esta é a rotina de um enforcado
repetida.
Repetidos sem sacrilégios.
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012
terça-feira, 14 de fevereiro de 2012
Quero dizer-te...
Quero dizer-te que esperes,
amo-te!
Quero ir contigo
aonde vais a sorrir
ou em mágoas chorando,
a vida...
Caminharei a teu lado em silêncio,
se preferires,
e o céu sobre nós será nocturno.
Espera na estrada
junto do sentido em que iremos,
serenos,
procurar um equilíbrio partilhado
para os nossos dias de paixão…
amo-te!
Quero ir contigo
aonde vais a sorrir
ou em mágoas chorando,
a vida...
Caminharei a teu lado em silêncio,
se preferires,
e o céu sobre nós será nocturno.
Espera na estrada
junto do sentido em que iremos,
serenos,
procurar um equilíbrio partilhado
para os nossos dias de paixão…
Brinca comigo
…para a Núria
Brinca comigo
na soleira da porta por onde entramos
nos recantos de um amor familiar.
Trouxe os brinquedos!
Brinca comigo
todas as ilusões que eu consiga criar
e os gestos que tu sabes repetir.
Brinca comigo
fazendo do tempo trapo enquanto eu cresço
e aprendo a adivinhar
o carinho que tens por mim.
Brinca comigo
mais uma vez
antes de partires.
Todos os dias são dias de amor
Todos os dias são dias de amor.
Não sendo, são dias
apenas
em que os seres coabitam
procurando nos outros a si mesmos
em metade
por fim completos
Todos os dias são dias de amor
pelos namorados,
pelas mães,
pelos irmãos,
por aqueles que nos importam
e queremos, em silêncio, abraçar
quando cai perto a tristeza
Todos os dias são dias de amor
e este
é o dia em que te amo!
Não sendo, são dias
apenas
em que os seres coabitam
procurando nos outros a si mesmos
em metade
por fim completos
Todos os dias são dias de amor
pelos namorados,
pelas mães,
pelos irmãos,
por aqueles que nos importam
e queremos, em silêncio, abraçar
quando cai perto a tristeza
Todos os dias são dias de amor
e este
é o dia em que te amo!
terça-feira, 7 de fevereiro de 2012
Aquele ser que me ouviu olhando as estrelas
Ontem procurei saber de estrelas.
Havia no ar clareza e quis descobri-las.
Olhei-as sem tempo,
sem interrupções,
sem a força das significações.
Mas não coube em mim toda essa atenção
e acercou-se do meu espaço, por cima de um muro,
um ser que ouvia
desatentas as respirações…
Saudei-o como a um velho amigo
e seguimos contemplando as estrelas
cada um usando o seu entendimento sobre elas.
Nada houve que precisássemos de dizer
e despedimo-nos depois,
mais tarde.
Apontei tudo isso, algures,
sabendo criar uma memória forçada
se um dia reler as palavras
que falam sobre esse gato pardo.
Havia no ar clareza e quis descobri-las.
Olhei-as sem tempo,
sem interrupções,
sem a força das significações.
Mas não coube em mim toda essa atenção
e acercou-se do meu espaço, por cima de um muro,
um ser que ouvia
desatentas as respirações…
Saudei-o como a um velho amigo
e seguimos contemplando as estrelas
cada um usando o seu entendimento sobre elas.
Nada houve que precisássemos de dizer
e despedimo-nos depois,
mais tarde.
Apontei tudo isso, algures,
sabendo criar uma memória forçada
se um dia reler as palavras
que falam sobre esse gato pardo.
Descobri-te um sorriso
Descobri-te um sorriso verdadeiro
e a beleza desse momento...
Descobri, em ambos,
momentos de retracção nas palavras,
adiados gestos,
reflectidos segredos breves.
Quis a verdade, sem dize-lo,
amar-te a alma
beijando-te o corpo
e ser, no prolongar da vida,
assim, feliz.
Procuro a atenção que me escapa
e o retorno de uma vontade.
O sorriso que te descobri
numa manhã, talvez, tardia.
e a beleza desse momento...
Descobri, em ambos,
momentos de retracção nas palavras,
adiados gestos,
reflectidos segredos breves.
Quis a verdade, sem dize-lo,
amar-te a alma
beijando-te o corpo
e ser, no prolongar da vida,
assim, feliz.
Procuro a atenção que me escapa
e o retorno de uma vontade.
O sorriso que te descobri
numa manhã, talvez, tardia.
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012
Sempre que ouso pensar-te a meu lado
Sempre que ouso pensar-te a meu lado
tenho no peito o suspiro da imaginação
não sendo verdade a acção
real o sentir.
Trago então o ensinamento do tempo.
Aquele tempo capaz de criar memórias
não pela sua duração mas pelo efeito que produz
dentro do meu ser.
É esse passado que tenho presente ao pensar-te,
é esse o tempo que temos juntos.
Espero
reescrever estas linhas com o tempo passado…
tenho no peito o suspiro da imaginação
não sendo verdade a acção
real o sentir.
Trago então o ensinamento do tempo.
Aquele tempo capaz de criar memórias
não pela sua duração mas pelo efeito que produz
dentro do meu ser.
É esse passado que tenho presente ao pensar-te,
é esse o tempo que temos juntos.
Espero
reescrever estas linhas com o tempo passado…
Se eu voasse...
Se eu voasse iria questionar esse facto.
Não por ser uma anomalia física mas uma questão humana.
Não por ser uma anomalia física mas uma questão humana.
Visitei um velho escriba
Visitei um velho escriba
que antes da idade fez parte do meu passado.
Escutei-o quando o olhei na entrada
e senti que queria soltar alguns sentidos seus,
senti uma necessidade brava no seu entender…
Tereis de mentir
ao mártir que vier ao teu encontro!
Contar-lhe o que será o seu desejo fervente
deixando-o, depois,
partir com o seu deus fraseado nos dentes,
com a sua cura na cova da boa vontade.
Porás, depois, no firmamento o olhar,
a procura de um saber concreto
e dirás baixinho: não quero mais escrever!
Será hora de findar a letra
de um caderno rasurado em continuidade?
Se as palavras se consomem frenéticas,
se os assertos não coincidem com o desejo
e o sentido foge do anseio
então é hora!
À sua frente pousada, meia folha escrita
existe.
Há nela um sofrimento calado por dentro,
por cada palavra rasurada
um sentido se esvai sem acabamento.
De meio livro se aproxima
uma alma que se rebaixa e consome
querendo compreender nos pormenores
todo o gesto que deve descrever uma vida.
que antes da idade fez parte do meu passado.
Escutei-o quando o olhei na entrada
e senti que queria soltar alguns sentidos seus,
senti uma necessidade brava no seu entender…
Tereis de mentir
ao mártir que vier ao teu encontro!
Contar-lhe o que será o seu desejo fervente
deixando-o, depois,
partir com o seu deus fraseado nos dentes,
com a sua cura na cova da boa vontade.
Porás, depois, no firmamento o olhar,
a procura de um saber concreto
e dirás baixinho: não quero mais escrever!
Será hora de findar a letra
de um caderno rasurado em continuidade?
Se as palavras se consomem frenéticas,
se os assertos não coincidem com o desejo
e o sentido foge do anseio
então é hora!
À sua frente pousada, meia folha escrita
existe.
Há nela um sofrimento calado por dentro,
por cada palavra rasurada
um sentido se esvai sem acabamento.
De meio livro se aproxima
uma alma que se rebaixa e consome
querendo compreender nos pormenores
todo o gesto que deve descrever uma vida.
sábado, 4 de fevereiro de 2012
Passou uma mulher anónima
Passou, por mim, uma mulher com o rosto gasto pelo ensino de dois filhos. Uma, outra, terrivelmente vencida pelo comodismo sedentário caminha pesada e feia em sentido oposto.
Não se encontram, olham ou falam. A ligação é minha entre elas. Por serem a essência de uma sociedade onde a mulher tornou-se numa pessoa. Depois de ser objecto, depois de ser uma deusa!
A mulher tornou-se humana do mesmo modo que o homem, invisível. Tudo por comum julgamento numa rua qualquer, numa cidade anónima, num país igual.
O que é afinal ser-se humano se não nos vemos?
Não se encontram, olham ou falam. A ligação é minha entre elas. Por serem a essência de uma sociedade onde a mulher tornou-se numa pessoa. Depois de ser objecto, depois de ser uma deusa!
A mulher tornou-se humana do mesmo modo que o homem, invisível. Tudo por comum julgamento numa rua qualquer, numa cidade anónima, num país igual.
O que é afinal ser-se humano se não nos vemos?
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