quarta-feira, 20 de junho de 2012

Voltar a casa...


Não sei se o que me magoa realmente
é saber que não regresso
ou a acção ausente dessa ideia.

Tenho por agora a compaixão de uma desculpa
mas ela não me sobra
e é na complexidade do vazio que nasce a sensação,
o rodopio,
a longitude entre mim e o meu desejo
pelo que não vejo
mas trago guardado no coração.

A sinceridade não me aconchega o coração


Não sei ainda porque acreditamos nas palavras!
Tomamos por princípio ser a sinceridade capaz e nobre
e descobrimos que é essa a nossa fuga à realidade,
que tudo o que realmente desejávamos
era ficar ali abraçados eternamente
numa despedida enganada.

 A sinceridade não me aconchega o coração
ou a mente
ou a dor da tua partida que dói sem repreensão.

 A consciência de te deixar ir sem negar-te o adeus.

Não soube ser contigo
nem sei ser sozinho.

Abraça-me a inquietação de uma perda
mesmo sem ter feito apostas!
Sem ter feito apostas…

Sei agora porque partiste!

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Não te irei procurar


Tenho repensado o momento,
o instante,
o contratempo que te fez partir.
E não encontro conclusão nisto
que é ter terminado o que não devia acabar
sendo findo o gesto negado de te perder.

Trago presente o gesto ineficiente de um adeus
que quiseste deixar-me
como quem não sabe o que sabe dizer
calando-se, então, o seu ser.

Não te irei procurar,
quiseste ouvir-me
e calei sem nada ter dito,
sem nada magoar-te e a ambos convencer.

Não te irei procurar
foi a maior mentira da minha vida,
a resposta curvada,
o enleio fingido de uma saudade que morde cada vez mais
e não a sei esconder senão nas metáforas
de uma escrita fluída e tentada.

Poderei ser condenado ao fim das minhas palavras
se não forem meus os gestos que te conto
mas é neles que te desenho as linhas leves do corpo
quando à solidão assoma a memória do último beijo. 

domingo, 17 de junho de 2012

Inquietação


A minha inquietação não é teres partido
mas as memórias deixaste comigo,
com o quarto onde nos esquecemos de quem éramos,
nas ruas onde perdemos os cuidados do tempo.

A minha inquietação é não perceber-te o caminho
ou sabe-lo descobrir
junto da minha atenção.

Como se fosse infinita esta condição…

sábado, 16 de junho de 2012

... Com efeitos da escuridão.


Não sei falar senão calado
debaixo de um olhar excêntrico
com efeitos de escuridão.

Não sabem ouvir os que me escutam
ou, ouvindo, saber conhecer
porque me pensam em parte do que os marcou.
Não sei ser inteiro nesses momentos
e deixo sempre essa impressão dispersa de mim.

Volto a escrever, 
imagino,
um livro de atenções negadas,
a morte do próprio céu,
a síntese de uma luz convexa na sombra
que me tem acolhido.

Não me sabem saber
todos os que me dizem conhecer. 

terça-feira, 12 de junho de 2012

Obrigado


...Onde o nosso amor pode existir mas não expandir-se.



Sinceridade…

É esse o tom que damos às palavras
sempre que não sabemos mentir!
É esse o nome das ilusões racionais,
dos devaneios verbais
quando não há um guião mental racionado.
É a consistência emocional que trava
segura e magoada
a consciência de um ponto frágil em nós.

Sabemos que dizer a verdade será levar ao infinito
a finita vontade de não sofrer,

por ti!

Dizes que não é certo o coração,
que o tempo é um vácuo espelhado
onde o nosso amor pode existir mas não expandir-se.

És sincera, talvez,
mas a vontade anula-se no próprio engano
porque sabes que não minto.

Teimas em guardar-te
e eu não sei proteger-te de ti mesma!

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Vil interesse

Poderá este pensamento servir o mais vil interesse do meu ego
mas nunca terás um sorriso íntimo em que eu não participe
ou um carinho esquecido na palma da minha mão...

...Se me quiseres encontrar!

O que me faz pensar-te


O que me faz pensar-te
não são as palavras que disseste
mas a importância que lhes dei,
a força que ainda têm em mim,
nos meus sentidos,
no sentido de tudo isto
e nisto que é não ter sentido.

O ódio que tenho reprimido
é não conhecer-te o olhar
e ter-te presente na tua ausência
mesmo quando te escondes.

O sonho confunde-me o desejo
mas desejo não sonhar-te!
Não quero ter mais que o que me quiseres
nem sabe-lo se não o fizeres.

Continuarei olhando-te… 

sábado, 9 de junho de 2012

domingo, 3 de junho de 2012

... debaixo das árvores do jardim.


Deixaste cá dentro
algo que não tem forma ou cor
mas começa a devorar-me a calma!

Calo-me por senti-lo
quando estamos juntos 
deitados no jardim a pesar sobre a relva pequena,
a sentir a inércia das horas
como se fossemos eternos durante as tardes…

Quis beijar-te, hoje!
Sentir frescos os lábios
que me tem feito sonhar futuros.
Mas contive-me! Não era esse o momento.
Não sem te contar
a inquietude  que me causa a lembrança do teu perfume
e o olhar puro que me deitas debaixo das árvores do jardim.

Não saberia justifica-lo, depois,
se não me tivesses sorrido antes.

E os dias são limbos
perfeitos
quando sopra a brisa doce de um sol cúmplice.

Até que tenha outra coragem…

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Não sabemos ser nós


"Se mostrarmos ao mundo todas as nossas vontades e sonhos dirão que somos loucos. Por gostarmos de coisas aparentemente opostas, de algos que são surpresas, de nadas supremos, de sentidos utópicos.

Seria um erro assumirmos todos os nossos fascínios! Não nos saberiam compreender. Não nos saberiam enquadrar.


Todos temos uma paixão secreta que quem nos conhece não saberia compreender. Todos temos uma vontade reprimida que nos desfigura. Que nos muda o ânimo e não sabemos mostrar ao mundo, assim, como somos.

Preferimos evita-las ou deslocar para um amigo quando falam.

Aceitam-se, apenas, encontrando esses desejos num ensaio de personalidade, num heterónimo. 

A sociedade não sabe conhecer um indivíduo cujo segredo se manifeste, não o sabem olhar, não o sabem ver, igual.  Não o sabem entender múltiplo e é essa toda a força que arrasta para a sombra os sonhos.
Somos apenas uma face de nós e, por sinal, a mais fraca e feia.

Porque ser múltiplo é ser incoerente."


Texto publicado no segundo número da fanzine Lacuna, (Madeira), pag. 8.