terça-feira, 27 de março de 2012

Carta descontinuada ao mundo… ao teu mundo. 2


E se eu decidisse dizer-te todas as barbaridades que se movem como uma massa gigante e densa sobe o meu inconsciente? Explicar-te que nem tudo na vida se resume a impulsos. Que a única coisa que conseguiste, afinal, foi tornares-te numa pessoa barata… Desprezível!
Não sei até que ponto tudo isto ganha a minha sinceridade e reflecte a tua realidade mas conheço estas palavras desde que acordei.
E a raiva que sinto por tudo… Se te pudesse abraçar…
A primeira vez que li Ricardo Reis achei-o assustado perante os frutos da vida e hoje reconheço tanto valor nas suas palavras que me sinto vergar.

“Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois
Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
    Nem fomos mais do que crianças.”

Ao menos se cumprirmos a promessa calada de não mais olharmo-nos o rio fluirá. Triste, chegará à sua foz e perder-se-á no oceano que banha a minha terra e as pessoas saberão de mim, de nós, sem nos conhecerem os nomes.
Alguém escutará o seu bramido nas tardes de inverno e poderá dizer que algo nos tem calado. E não saberão escutar os que te confessam…
E quando finalmente o mar acalmar eu estarei em casa.
Quando o mar acalmar tu estarás com as flores mortas no teu regaço. Com a lágrima de arrependimento mais viva ainda e um casaco esvoaçando junto à barragem, por cima das rochas, onde nasceu a nossa, minha, dor.
Onde enlaçamos as mãos… 



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