sexta-feira, 9 de março de 2012

O sentido de tudo isto que dizemos...


Trabalhei alguns anos nas oficinas dos sentidos. Era um trabalho difícil, mal pago mas cativante. A minha especialidade eram os sentidos das palavras não ditas, empregues na escrita. São de categoria mais elevada! Grau maior em dificuldade. 
Não têm entoações, intervalos de respiração ou um olhar cavernoso que as assista. Não têm mais que a cumplicidade entre a vida de quem lê e os sonhos de quem as escreveu. Trabalhei quase sempre sozinho. Por vezes um ou outro assistente de conceito trazia-me algo mas eu recusava-os, geralmente. Não os entendia como deveria ou querendo divagava pelo que seria, não o objeto mas o vazio dele! Aquilo que dele não dizia, então. Oficiei muito do que se pensa hoje. Se não o fizesse, as coisas perderiam o sentido mais vincado e teriam desaparecido como muitas se tem visto, ou melhor, deixado de ouvir. Hoje, o “céu” é outro que não o paraíso de antes. É azul e trás nuvens às vezes, puras, nos dias de sol… E mesmo ele, o rei agora é astro, simplesmente. Apesar do carinho que lhe temos! Perdeu a sua áurea enlevada por mostrar-se demasiado distante da verdade.Trabalhei sentimentos, por vezes!... Não sei colocar exactidão na frase mas foi grande e vasto o número… E nós além dos que sabíamos teimamos em criar outros! A saudade, para exemplificar a desdita. A esperança para içar as velas e seguir na escuridão um fio de luz, uma estrela, um fogo errante…
Reformei-me de tudo isso quando conheci o amor! Não o soube sentir, descrever e mostrei incapacidade para continuar o meu trabalho. Não fazia sentido, o sentido que eu tivera e afastei-me do ofício. 
Ainda hoje ninguém o soube dizer! Nenhuma das pessoas que me substituiu o conseguiu cantar e a incerteza vai crescendo sempre ao mudar a humanidade. Não sabemos tê-lo e continuamos a sofrer por ele. Como uma ferida que tivesse na personalidade o mais forte ser.
O amor define-se vago… Se definir significa alguma coisa a um estado de alma. Apresenta-se caótico, sorridente, até. O amor não encontra vontade, encontra desejo, chama em doce enlouquecer.
O amor tirou-me o sentido!

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