quarta-feira, 7 de março de 2012

O complexo...


O cinza do ferro caia a manhã,
triste,
e abrem-se os portões do dia.
Não há vento, há compasso, há movimento
nas ruas que descem, agora.
Os homens sem rosto caminham
julgando a acção completa,
vivendo em contrário ao sentimento. Resignam-se.
Ferem-se por dentro com destreza.
Julgam a vida que conseguem,
por analogia,
aquela que teria o futuro se sonhassem,
um pouco mais
além dos muros daquilo que conhecem.
O assobio da fábrica estremece em surdina, distante.
Abre-se o complexo,
da fábrica,
e os homens caminham
sem palavras que lhes confortem os desejos,
as ideias de vida invocadas mas logo negadas, sem pedido.
Na realidade de caminharem resignados
encontram-se mais calados ainda.
A revolução funciona dentro deles
como contracção mental,
como pano quente que encontra latejante o músculo,
enganando-o,
até que o tempo esqueça a dor.
Mas o tempo prolonga-se e o sonho mantêm-se.
E tornam à fábrica,
vazios…

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